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Quão digna de confiança é a Tecnologia?

Beco sem saída

Ideias

2017-03-31 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Podemos definir “confiança” como o grau em que se acredita na veracidade de algo. Quando esse algo são artefactos (e.g., um micro-ondas ou um computador) e sistemas tecnológicos (e.g., um GPS ou um sistema de controlo de tráfego aéreo) o que está em jogo é a maior ou menor convicção que teremos sobre se se irão comportar ou se se comportam tal como foram concebidos e para o(s) propósito(s) para que foram concebidos.
Não será difícil imaginar uma linha com duas extremidades que representariam de modo ideal os tecnocéticos absolutos, numa delas e os tecnocrédulos completos, na oposta. Digo de modo ideal, porque julgo ser praticamente impossível encontrar alguém que assuma um ou outro desses posicionamentos radicais, sendo antes mais plausível que, seja quem for, conserve uma (des)confiança variável em relação à Tecnologia ou, mais especificamente, em relação a esta(s) ou aquela(s) tecnologia(a) particular(es).

O que então faz as pessoas aproximarem-se mais de um ou outro desses polos?
Possivelmente o que, em primeiro lugar, determina o grau de confiança em qualquer tecnologia é a perceção que se tenha da fiabilidade do seu funcionamento. Com efeito, quando algo (artefacto ou sistema tecnológico) deixa de funcionar como esperado ou como vinha até então a fazê-lo ou simplesmente deixa de todo de funcionar a propensão para a desconfiança aumenta. Poderá ser um simples relógio que começa a atrasar-se cronicamente ou um telemóvel cuja bateria solicita recargas sempre mais cedo. Mas poderá igualmente ser quando tecnologias mais críticas, como a submissão online da declaração anual de IRS ou análises bioquímicas ao sangue não acusam determinadas substâncias nocivas efetivamente nele presentes. Em casos como estes a desconfiança resulta da frustração e cria ansiedade.

Depois, essa confiança também tende a baixar quando uma tecnologia não consegue impedir com eficácia que informação pessoal (mesmo íntima) caia em posse alheia ou que domínios privados onde ela se encontre sofram devassa e inclusive destruição.
Logo nos ocorrem aqui, como exemplos fáceis, situações em que pessoas se viram subitamente com enormes dívidas para pagar após os seus cartões de crédito terem sido clonados ou foram vitimadas por software malicioso (e.g., vírus) que lhes bloqueou ou arruinou os seus infetados computadores. Neste tipo de casos a desconfiança deriva da insegurança e, subindo de tom, desemboca no receio.

Por fim, e para me cingir a três possíveis fatores indutores de (des)confiança numa tecnologia, estaria o do risco dela poder gerar consequências indesejadas, seja em termos físicos seja em termos morais. Uma ilustração para as primeiras seria a do uso de dispositivos eletrónicos, como telemóveis, em grande proximidade com o nosso corpo e a suspeita de que as radiações que emitem possam causar perturbações oncológicas. Já para as segundas o consumo de moduladores do humor (e.g., antide- pressivos) poderá ajudar no controlo de transtornos afetivos, mas também gerar inquietação relativamente aos seus efeitos secundários, entre os quais o de perda de autenticidade emocional ou o sentimento de despersonalização. Casos assim assentam na consciência da perigosi- dade e suscitam alarme, quando não pânico.

Será, pois, de esperar que, controlados esses três fatores (fiabilidade, segurança e risco), pelo menos, o grau de confiança numa tecnologia - e, em última instância, na Tecnologia em geral - aumente. Mas, claro, a nossa relação com o artificial é mais exigente do que isso.

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