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Ideias Políticas

2016-04-26 às 06h00

Hugo Soares

Se ontem se celebrou o 41º aniversário do 25 Abril, também releva que há poucas semanas assinalamos o passar de 40 anos desde a aprovação da Constituição da República Portuguesa: a liberdade conquistada escrita em letra de lei suprema.
São quatro décadas de transformação profunda num País que era então manifestamente escuro e situacionista. Um Portugal que as novas gerações (como a minha!) só conhecem de ouvir falar, mas sobre o qual se construiu um País que somos, mas não ainda o que queremos ser.
Abril foi liberdade. Abril é desejo. Desejo de progresso, de proteção, de direitos, de conquistas e anseios que se tardam em cumprir. Os últimos quatro anos foram o esbarrar contra a dura realidade de um País que tarda em se realizar. Por fantasia - tantas vezes - mas sobretudo por incúria, irresponsabilidade e falta de “fazer o que ainda não foi feito” (como canta a propósito o Abrunhosa).
Vamos por partes.
Os Portugueses perceberam da pior maneira que Abril não se apregoa, concretiza-se. Durante anos a mais - não será aqui que se aprofundará - Portugal acumulou dívida e défices. Incapaz de criar riqueza sustentável, incapaz de distribuir a pouca riqueza de forma justa, impotente perante uma economia protegida e carregada de privilégios, o resultado não tardou: uma bancarrota anunciada, e um País incapaz de pagar salários, pensões ou de garantir os mínimos do Estado Social. Em consequência, Portugal teve que pedir ajuda externa e amputar a primeira de todas as conquistas de Abril: a livre soberania. Assim, de uma assentada, Abril ficou definhado. Portugal sem soberania. Portugal sem poder garantir a proteção aos mais carenciados. Portugal sem crescimento e sem criação de emprego. Portugal carregado de hipocrisia. Os mesmos fantasistas que fazem de Abril o metafísico e o etéreo logo se apressaram a maldizer aqueles que - com os portugueses - lutavam por transformar Portugal e sair da crise. No fundo, digo-o sem rebuço, estes foram os que, durante quatro anos, (governantes e povo) quiseram verdadeiramente concretizar Abril. Os outros são os que vivem à custa da glória de terceiros, dos privilégios garantidos, da subsidiodependência e à sombra do Estado. São os que querem a democracia à moda deles. Ao gosto deles. Da preferência deles. Dos deles. Quando a democracia dita outras vontades (porque é o povo sempre quem mais ordena) então a democracia está doente (dizem eles). Então faltam a cerimónias oficiais. Então berram horrores, como se de donos disto tudo se tratassem e achassem que lhes estão a invejar as pratas de morgados…
Hoje, Portugal está de novo no pleno da sua soberania. Mas mesmo com a democracia a querer outros, são os mesmos do passado que queremos esquecer que mandam. Sim, que mandam. Os que hoje mandam são os tais que enchem a boca com Abril, precisamente os mesmos que o esvaziam na concretização. Os mesmos que de cravo na lapela caminham alegremente num Portugal que não é o que Abril deve realizar. Se assim é, ficará Abril adiado à espera de uma maioria maior, bem maior do que a que já é maior, que seja capaz de concretizar o Abril que é de todos. Sempre. E não quando convém.


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