Correio do Minho

Braga, terça-feira

Que fazemos com as coisas que já não existem?

Dar banho às virgens

Ideias

2015-10-07 às 06h00

José Hermínio Machado

Num tempo bracarense marcado pela ‘tradição’ dos Encontros da Imagem, vem a propósito falar desta invenção tecnológica, que foi e é a fotografia, a propósito do poder que lhe está a ser consagrado nos domínios do património, quer em termos de recordar a cidade que foi, quer em termos de poder fundar novas reconfigurações de nossa representação folclórica.

Desde meados do século XIX que andamos a fotografar-nos e hoje recorremos cada vez mais aos arquivos da fotografia para compreendermos como nos fomos tipificando ou folclorizando. Li a obra de Proust (‘Em busca do tempo perdido’) na versão e-book; neste tipo de leitura gente pode criar um bloco de notas, automaticamente, dispondo para o futuro das citações que quiser. Assim fiz e organizei as minhas segundo esta perspectiva da tradição ou das tradições, porque no plural sempre é maior a probabilidade de diálogo.

As sete obras de Proust que li têm, quanto a mim, esta grande vantagem, de terem sido escritas num tempo de viragem, esse tempo do século XX (escritas entre 1908 e 1922) que tem ainda todas as marcas do XIX, e muitas também dos anteriores, mas que começa a consumir já as maiores inovações técnicas e tecnológicas que naquele século se geraram e que ainda hoje determinam as nossas vidas: a energia eléctrica, o comboio, o automóvel, o avião, a rádio, o fonógrafo, o telégrafo, o telefone, a fotografia (e já se antevia que havia de chegar o «foto-telefone do futuro, em que no som se recortará com nitidez a imagem visual»), para além das inovações no campo social, nos costumes, nas tradições, na moda, na linguagem.

Para o caso da nossa cidade de Braga também deveríamos organizar um banco de leituras que desse conta do seu embate com as novidades técnicas e tecnológicas e nos mostrasse em retrospectiva como é que foi o filme das mudanças, afinal uma aspiração de passado de que andamos carentes, sobretudo aqueles que se dedicam a um sentido do social inspirado na preservação de tradições ou de dinâmicas tradicionais. Vê-se por aí uma rede crescente de adeptos da fotografia, por exemplo, como se vê por aí uma rede de adeptos de «recriações» de tempos históricos, o romano, o barroco, o medieval.

Pois da leitura de Proust retirei este fragmento interessante sobre a fotografia, uma inovação que os contemporâneos começaram por tomar como espelho de suas diabruras, mas que depressa viram também como arca de memórias: “A fotografia ganha um pouco a dignidade que lhe falta quando deixa de ser reprodução da realidade e nos mostra coisas que já não existem.” - registei no dia 19 de Agosto de 2013, eram 4:28 da tarde, na praia de Esposende (o e-book tem a vantagem de se ler melhor debaixo da luz solar).

De técnica de preservação do instante efémero, a fotografia foi vivida como memória, reganhando assim toda a sua dignidade de bem civilizacional. E por ela se podem fazer regressar as «coisas» que já não existem. Mas regressar para quê? Para inspirarem o movimento de encantamento sobre o real que determinou a sua execução, para inspirarem um aprofundamento de reflexão, documentando dimensões significativas que hoje nos fazem falta: compreender como fomos mudando, perceber em que nos enganámos, aumentar o que sabemos. A fotografia que não se deixa reproduzir, obriga-nos a criar.

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