Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Que “ricas prendas”…

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2011-02-06 às 06h00

Carlos Pires

Na semana passada, a administradora do Banco de Portugal, Teodora Cardoso, defendeu que Portugal tem de mudar de vida. “A economia já não se pode endividar mais, tem de proceder às reformas estruturais que devia ter feito há décadas e evitar a fuga de jovens qualificados” - referiu.
Na semana passada, ainda, começou o novo ano do calendário chinês (Ano do Coelho) o qual, segundo os astrólogos, trará grande prosperidade e sucesso nos negócios e nas finanças. Em Portugal, pululam vários estabelecimentos comerciais de cidadãos chineses, cada vez com mais clientela, atentos os tempos de “aperto” que os portugueses vivem. Merecemos, pois, beneficiar dos “ventos benfazejos” que o novo ano astrológico promete trazer e que a onda de bonança também nos toque a nós. Que rica “prenda” seria. Uma “prenda envenenada”, porque difícil e esforçada, já que vai exigir que se tirem muitos e bons “coelhos” da cartola, sem fundo, que é a economia portuguesa. Contudo, continuo a acreditar na garra lusa, astros à parte.
No povo luso, eu acredito. Nos políticos (pouco) lusos, eu não acredito. Umas “ricas prendas” que nos saem na rifa de quando em vez… E digo isto sem qualquer tipo de demagogia! Todos os dias, infelizmente, fico a conhecer novos e tristes factos que me obrigam a concluir assim.
Recentemente, no âmbito do processo Face Oculta, no qual José Penedos, ex-presidente da REN (Redes Energéticas Nacionais) é acusado de corrupção, desfilaram junto ao Campus da Justiça, em Lisboa, na qualidade de testemunhas, notáveis personalidades da sociedade política portuguesa. A oferta de diversos presentes a José Penedos pelo empresário Manuel José Godinho, cujo valor varia entre mil e cinco mil euros, é uma das questões que constam do processo e foi a propósito dela que ficamos a saber a opinião das “ilustres” testemunhas.
Que José Penedos não veja qualquer acto suspeito nas dádivas de Manuel Gordinho, até posso aceitar, enquanto argumento de alguém que tem forçosamente de se livrar de um processo criminal e que tem de criar a convicção no juiz de que os presentes não visavam criar um clima propício ao favorecimento dos negócios de Godinho e de adjudicação de obras públicas. De igual forma, admito que haja quem considere José Penedos como alguém impoluto.
Contudo, a minha estupefacção é total quando pessoas, como o ex-presidente Jorge Sampaio, afirmam, com a maior naturalidade, que as prendas de Natal por si recebidas “não cabiam em três salas (...) Nunca comprei uma caneta ou um relógio, mas nunca me senti minorado na minha honestidade por causa disso.'. Ou quando António Vitorino, ex-comissário europeu, refere que só foi governante 'dois Natais' e que os “presentes” que recebia nunca eram devolvidos, sob pena de o facto ser entendido como uma falta de cortesia. Já na Comissão Europeia, Vitorino diz que foram estabelecidos limites para este tipo de “presentes”, mas por imposição dos países nórdicos, que consideravam de mau tom receber presentes. Ou ainda quando Eduardo Catroga admite que ele próprio, enquanto Ministro,  sempre recebeu prendas de maior ou menor valor e que considera esta prática normal, defendendo que 'as pessoas recebem, mas mantêm a sua independência', subentendendo-se, podem ou não atender a pedidos.
Senhor Doutor António Vitorino, deixe-me que lhe diga que são os países nórdicos que estão certos: a prática de receber presentes pessoais deve ser pura e simplesmente proibida para os governantes e políticos. Não porque tal facto implique necessariamente prevaricação, mas porque fomenta a política da “cunha”; do “clientelismo” e torna indelével a frágil linha que separa honestidade de corrupção.
Além do mais, não acho aceitável que um político venha confessar que também ele recebera muitas prendas valiosas e que isso é prática comum. Temos todos de ficar preocupados. Por que receberam estes senhores prendas valiosas? Qual o fundamento? Qual a intenção? O objectivo? Qual a razão de alguém mostrar “cortesia” pelo político e de a não expressar com qualquer outro cidadão comum? Que contrapartida espera encontrar no político?
Portugal tem de conseguir criar mecanismos administrativos e decisórios transparentes e avessos à reprodução de “arranjos” secretos entre políticos, funcionários da Administração Pública e empresários - síndrome de uma corrupção endémica que é produto da pobreza e gera ainda mais pobreza. Portugal tem de mudar de vida. Urgentemente!

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