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Que os ventos soprem e abram as portas de par em par

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Que os ventos soprem e abram as portas de par em par

Voz aos Escritores

2020-04-17 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, in Mensagem


Numa altura como a que vivemos, forçados ao isolamento físico devido à pandemia de Covid19, as palavras do poeta Fernando Pessoa devem caber-nos na consciência como uma luva, tirando proveito do distanciamento a que fomos obrigados para parar e pensar. Usada saudavelmente, a solidão pode ser um veículo de excelência para cultivarmos alguns dos estados mais férteis para o nosso cérebro e espírito, para experimentarmos os nossos maiores desafios e afastarmos os tormentos com coragem e resiliência.

Em “o mostrengo”, e chegados ao Cabo das Tormentas, os portugueses encontram um monstro voador, o mostrengo, que pretende atemorizá-los para que não prossigam a viagem. Porém, o marinheiro português (o homem do leme), embora de início o receie e hesite, enfrenta-o, neutralizando-o, pois está imbuído da vontade de um rei e de um povo que não abdicam da sua missão, simbolizando a coragem e a ousadia do povo português:
[…] E disse no fim de tremer trez vezes:/«Aqui ao leme sou mais do que eu:/Sou um povo que quere o mar que é teu;/ E mais que o mostrengo, que me a alma teme/E roda nas trevas do fim do mundo,/Manda a vontade, que me ata ao leme,/D' El-rei D. João Segundo!»

O mostrengo voltou. Veio dos confins do mundo para nos atormentar, para pôr um fim nos nossos sonhos. Contudo, no meio da solidão, é preciso encontrar ânimo e força para lutar, tal como nos apela o escritor José Gomes Ferreira:
Não fique para trás, ó companheiro,
é de aço esta fúria que nos leva.
Para não te perderes no nevoeiro,
segue os nossos corações na treva.

Temos consciência, porém, que a verdade hoje é muito mais negra do que o arco-íris que se mostra ao mundo todos os dias. Nada ficará igual. As dificuldades serão imensas. Que, pelo menos, saibamos retirar ilações desta quarentena, para que nesta violenta situação não vejamos só aspetos negativos. E se este momento for aproveitado para a descoberta de coisas simples a que antes não déramos grande importância? Certamente que nos daremos conta daquilo que perdemos, das palavras que não dissemos ou escrevemos e de tanto que não saboreámos ao nosso redor. Quantos génios elevaram a fasquia em período de quarentena. William Shakespeare escreveu, por exemplo, uma das suas melhores peças, O Rei Lear, Isaac Newton melhorou os seus cálculos para criar a Teoria da Gravidade e as bases da Física clássica e Albert Camus, com “A Peste”, assinou um Prémio Nobel.
A literatura sempre foi terreno fértil para relatos sobre epidemias. E o que é certo é que, em tempo de novo Coronavírus, em vez de tentar esquecer, parece haver vontade de reler obras de histórias reais ou fictícias. No meu caso, dado que a leitura e a escrita fazem parte da minha rotina diária, aproveito o tempo de isolamento social para me ocupar com os canteiros do jardim. Garanto-vos que o trabalho de jardinagem é uma meditação silenciosa contínua, um demorar-me no silêncio desta quarentena. É um trabalho emocionante e tranquilizador. O tempo passa e eu nem dou por isso. Quanto mais tempo trabalho no jardim, mais respeito sinto pela terra e pela sua inebriante beleza. Tenho agora a convicção de estar a receber, nestes nossos versos, uma autêntica “Lição da Mãe Natureza”:
Contra a ideia de omnisciência de um mundo
que julga tudo saber e tudo poder,
alheia ao bicho invisível a olho nu,
eis a natureza no seu esplendor
vestida com as cores do arco-íris
e adornada com esmeraldas e rubis.

Tentar usar estes casos como inspiração pode ser uma forma mais positiva de enfrentar a real situação. Entre o enredo, o silêncio e a agilidade dos meus dedos, vou revelando alguns segredos, na esperança que os ventos soprem e abram as portas de par em par…

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