Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Que República queremos?

‘O que a Europa faz por si’

Ideias Políticas

2011-10-07 às 06h00

Pedro Sousa

Comemoramos, na passada quarta-feira, cento e um anos desse maravilhoso projecto a que chamamos República e, pasmem-se, gostei, pela primeira vez, de ouvir o Dr. Cavaco Silva.
Lá irei mais adiante.
A República nasceu de uma ambição popular galvanizadora, inspirada pela igualdade e, desde a primeira hora, mobilizou-se para democratizar o acesso à educação (universal e gratuita), percebendo que a educação é, sem sombra de dúvidas, a melhor ferramenta para construir comunidades orientadas para a coesão, para a inclusão, para o respeito pela diferença, para a liberdade e para o progresso.

Cento e um anos após a implementação da República foram cumpridos muitos dos seus so-nhos mas há outros que ficaram, de forma inegável nuns casos e de forma inevitável noutros, por cumprir.
Importa, no entanto, e a este respeito, lembrar que apesar de a República ter completado na passada quarta-feira cento e um anos, ela apenas tem (de acordo com a minha leitura histórica) cinquenta e três anos, pois não consigo, em nenhum momento, olhar os quarenta e oito anos do Estado Novo como tempo de República.

A efeméride coloca-nos, hoje, a reflexão num plano de dialéctica deveras interessante:
Que República temos? Que República queremos?
Na quarta-feira, no decurso das comemorações do centésimo primeiro aniversário da implantação da República, assisti, como disse acima, pela primeira vez, a uma intervenção do actual Presidente da República, à altura da sua responsabilidade enquanto máximo representante deste País com mais de oitocentos anos de nobre história, enor-me património e berço de mui-tas criações, conquistas e descobertas que ajudaram a dar ao mundo a face que hoje lhe conhecemos.

Considero sérios os apelos ao rigor, à poupança e à nossa capacidade de superação mas são, ao mesmo tempo, acertados e bem-vindos, principalmente quando o Governo parece ter-se esquecido deles, os alertas para a necessidade de termos uma estratégia para o crescimento, para o imperativo da criação de emprego, bem como, o cartão amarelo que mostrou à União Europeia quando afirma, e bem, que esta tem de trilhar um caminho coeso e solidário, tanto nos bons como nos maus momentos. Este meu elogio ao discurso do Presidente da República é também um traço de carácter da República que quero, da República pela qual luto.

Quero uma República onde o debate político entre os diferentes partidos aconteça de forma não acintosa, de forma não inquinada pelo espírito da “partidarite aguda” que faz com que, tantas vezes, se recuse uma boa ideia, proposta ou projecto apenas porque vem de um espectro político-ideológico diferente do nosso.

Quero uma República mais aberta, mais sadia, mais responsável e mais transparente na discussão e na acção. Quero uma República que concretize o seu ideário fundador, de ser mais do que representativa, ambicionando, todos os dias, ser mais participativa, próxima e participada.
Chegado aqui não posso deixar de me referir ao Livro Verde da Reforma Administrativa.

Apesar do compromisso para a reorganização territorial do Estado constar do memorando da troika, compete ao Governo criar um modelo para o concretizar, modelo, esse, que não é condicionado pelo dito memorando. Indo, agora, em concreto, ao modelo apresentado pelo Governo, importa, desde já, dizer que estamos perante um enorme atentado ao poder local democrático, poder reconhecido da esquerda à direita, como o principal factor de progresso e desenvolvimento do Portugal republicano pós 25 de Abril.

Poder local que concretiza a sua dimensão eleitoral nas eleições autárquicas de quatro em quatro anos e que apesar de, estas, não apresentarem, ainda, os índices de participação que todos gostaríamos de ver, são, sempre, as eleições onde a abstenção assume menor expressão devido à proximidade entre eleitores e eleitos que, não raras vezes, se conhecem.

Avançar por esta via de cortar freguesias, matar a sua história, património e identidade é uma clara tentativa de homicídio à tão propalada República próxima e participativa. Estou, nesta matéria, como em todas as outras, aberto a um debate sério e construtivo, que conduza a uma boa solução mas perante o que se nos apresenta não posso fugir ao poeta: “Posso não saber por onde vou; mas sei que não vou por aí”.

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