Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Quem “reza” por todos?

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Ideias Políticas

2015-11-17 às 06h00

Carlos Almeida

O mundo está de luto. Ninguém pode ficar indiferente perante as atrocidades cometidas em Paris na passada Sexta-feira.
Hoje, chora-se pelas vítimas dos ataques terroristas ocorridos em França. Como antes se chorou por Charlie Hebdo, ou pelas vítimas dos atentados na maratona de Boston. Todos estes sangrentos acontecimentos devem merecer, sem hesitação, a condenação de todos que defendem a paz.

E é deveras importante que a condenação se faça por todos os meios, através das instituições ou dos órgãos de comunicação social. Acontece que nem sempre é assim. Muito recentemente, depois de um atentado durante uma manifestação em Ankara, na Turquia, em que morreram mais de cem pessoas e algumas centenas ficaram gravemente feridas, quais foram as vozes que se ergueram contra o terrorismo? Ou ainda - questiono - quem apareceu a condenar os ataques em Beirute, no Líbano, que vitimaram mais de 50 pessoas, um dia antes dos acontecimentos em Paris?

Porque parece que o mundo estremece apenas quando as bombas rebentam na Europa ou nos EUA? Que diferença faz se o atentado é em Paris, em Boston, em Beirute, ou na Palestina? Não se trata em qualquer dos casos de crimes hediondos contra a humanidade? Não são as vítimas, todas elas, cidadãos em igualdade de direitos? Não é o terrorismo o inimigo comum?

Não quero com isto, de todo, manifestar mais ou menos solidariedade para com este ou aquele povo. Pelo contrário, pretendo, isso sim, colocar todos os crimes, independentemente de quem os comete e contra quem, no mesmo patamar de condenação e combate. De nada interessa a religião, a raça ou a nacionalidade dos culpados. São criminosos e terroristas e devem ser tratados e combatidos enquanto tal.

A luta pela paz, contra todos os tipos de terrorismo, deve ser travada elevando a solidariedade entre os povos, através da afirmação da liberdade e da democracia, no respeito pela soberania dos Estados e pelo direito internacional.
A luta pela paz não se faz com a construção de muros, nem com o encerramento de fronteiras. Muito menos com a venda de armamento a grupos extremistas e radicais com o objectivo claro de determinar ofensivas políticas e culturais dentro de Estados soberanos e independentes, instigando o medo e o terror, procurando dividendos económicos.

Combater o terrorismo é combater a suas causas. É rejeitar a ingerência e a desestabilização no médio oriente. Não é possível fazer a guerra e defender a paz. Não é possível combater o terrorismo perseguindo crenças ou religiões, ameaçando direitos e liberdades fundamentais.
Ontem, como hoje, é preciso ter a coragem de condenar os ataques de Paris e de todos os outros de igual modo. “Rezemos por Paris”, Ankara, Bagdad, Boston, Beirute e por todos que sofrem as duras consequências da violência e da guerra.

“Rezemos” por um mundo de paz. Faça-se assim, silêncio em memória de quem também morreu pelas mãos de grupos tão terroristas como os de Paris. Iluminem-se também os monumentos com as cores das bandeiras do Líbano, do Iraque, da Palestina ou da Turquia. De que vale gritar “Je suis Charlie” ou erguer a bandeira de França, quando se nega o mesmo direito à vida e à liberdade a tantos milhões de pessoas noutros pontos do mundo. Sejamos solidários e firmes no combate ao terrorismo. Sempre e sem olhar a quem. Só dessa forma podemos ser coerentes na defesa da paz e de um mundo mais justo, solidário e igual.

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