Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Quem me dera voltar a ser Criança', por Ana Isabel Oliveira

O que nos distingue

Conta o Leitor

2011-07-15 às 06h00

Escritor

Abri um olho, abri o outro ainda mais devagar! - Já é dia! A luz penetrava pelos buracos da persiana. Abri-a tão subtilmente com medo que não fosse verdade! Sol, o sol radiante cheio de vitalidade e energia como eu, estava ali à minha frente! Finalmente era dia, era mesmo verdade!
Dei por mim vestida e pronta a sair de casa.

A euforia e a ansiedade transbordavam todo o meu Ser! A inquietude não me deixava pensar… Mais um dia de férias estava à minha espera e não podia perder tempo pois, o anoitecer chegava “num abrir e fechar de olhos”!

Abri a porta sem um único estalar e segui caminho ainda com os meus Pais a pernoitar… A casa do Filipe era o meu destino. Já sabia que quando lá chegasse a bicicleta ia ter mais uma vez o pneu furado ou que os grilos tinham morrido ou mesmo que a bola de jogar à latinha estava furada… Algo tinha que acontecer, se não o que iríamos nós fazer durante todo o dia? Não havia playstation, wii, nem a televisão nos interessava! A natureza é que nos dava vida, liberdade, saúde, paz e tanta felicidade!

- Cheguei! Filipe, onde estás? - Mais dois pássaros foram traídos pelas armadilhas perfeitas do meu primo! Lá estava ele, de calções, t-shirt e com as sapatilhas que nunca poderiam faltar…
- Belinha, estava a ver que não vinhas! Olha, já estive a ver e, a tua bicicleta tem um ou dois furos no pneu da frente… Temos que tratar disso mas a “Landinha” só abre às nove.

A “Landinha” era a venda perto da casa do Filipe, onde todos os dias gastávamos os poucos trocos que juntávamos em securitos para as câmaras de ar dos pneus das bicicletas e em gaiolas para os grilos.

Tínhamos um dia árduo pela frente! A minha bicicleta lilás com um cestinho e uma campainha inconfundível, tinha mais uma vez o pneu da frente furado… Ainda por cima, dos cinco grilos que tí-nhamos apanhado no dia anterior, apenas um tinha sobrevivido. Que tragédia! Tanta coisa para fazer durante aquela quarta-feira de tanto calor!

Pegámos nas palheiras e lá fomos nós para o campo mais verdejante que alguma vez vi, abaixo da casa do Filipe. Em três horas apanhámos dois grilos! Vitória, ainda por cima um deles cantava incansavelmente! Que alegria! A primeira tarefa do dia estava cumprida…

Com tanta preocupação, agitação e afinco, nem tempo tínhamos para almoçar. Sempre tivemos sorte nestas ocasiões pois, os nossos Pais trabalhavam durante todo o dia e se não almoçássemos nem davam por isso! As galinhas sempre foram nossas cúmplices!

Lá estava à nossa frente a bicicleta lilás, que o Filipe tanto troçava. Meu Deus, três furos! A água límpida do tanque era reveladora das “bolhinhas” de ar que fazia a câmara de ar! Olhei para o meu bolso e respirei de alívio… Ainda tinha uns trocos do dia anterior, que deram para comprar securitos!

Toda a tarde para reparar a minha primeira bicicleta, aquela que me acompanhou durante pelo menos dois anos e que tinha instruções muito precisas dadas pelo Filipe, para me ensinar a andar de bicicleta. Muitos trambolhões dei e tive zangas sem fim com o meu primo mas hoje recordo, com um sorriso, a alegria que vivíamos todos aqueles momentos tão inesquecíveis e saudáveis!

Os furos estavam consertados mas agora tínhamos mais um problema… Já era noite!
O assobio ensurdecedor do Tio Armando ouvia-se a uma distância abismal, isto queria dizer, que tínhamos que largar tudo o que estávamos a fazer e ir rapidamente para casa. Lá fora no portão, estavam os meus Pais, cansados do trabalho vinham--me buscar!

A missão do dia estava cumprida… Tínhamos os grilos e a bicicleta consertada! O amanhã já nos esperava desesperadamente…
Fechei a persiana. Deitei-me e dei por mim a pensar que o dia seguinte iria ser menos ofegante! Estava tudo preparado para brincarmos sem problemas, mais um grande dia de férias estava à nossa espera!

Apesar da ansiedade e respiração arrítmica, fechei os olhos e adormeci com tanto cansaço. Quando acordei de manhã fiquei tão triste e desolada…Toda aquela história tinha sido um sonho! Um sonho que já foi uma realidade! Que tristeza… Agora somos adultos, cada um na sua vida…
Uma lágrima profunda vinda bem cá de dentro, escorregou-me pelo rosto e pensei: “Quem me dera voltar a ser Criança…”

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