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Quem se senta nas nossas mesas?

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Quem se senta nas nossas mesas?

Ideias

2020-06-15 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

No dia 20 de julho de 2019 assisti à missa nova do padre jesuíta João Manuel Silva na igreja paroquial de Nogueiró. Na homilia, o padre João Manuel desafiava os presentes a questionarem-se sobre as mesas em que nos sentamos no nosso dia a dia. “Como são as nossas mesas, a mesa de nossa casa, do café, das nossas comunidades paroquiais, jesuíticas, dos nossos trabalhos apostólicos? Quem se senta às nossas mesas, só os que pensam como nós, os que são nossos amigos, os que são da nossa cor política? Os estrangeiros, os que pensam de um modo diferente, os que têm uma religião ou valores diferentes, têm lugar nas nossas mesas? Numa altura de tentação ao fechamento isto devia fazer-nos pensar.”
Estas palavras, proferidas numa cerimónia de uma religião que não professo, foram particularmente tocantes para mim. Se cada um de nós olhar para o seu círculo de colegas e amigos, depressa se apercebe da importância e da necessidade desta reflexão.
Naquele momento, o monstro do populismo antidemocrático já estava à porta do nosso país mas ainda não se tinha assumido com a desfaçatez das últimas semanas. Ninguém conjeturava que mergulharíamos num tempo de transformação social absolutamente inédito e incerto: a pandemia colocou-nos provações inimagináveis, a crise económica que provocou é um desafio brutal e, ao mesmo tempo, um movimento de revolta contra a discriminação racial eclodiu nos Estados Unidos da América e expandiu-se até à Europa.
Os extremismos, sejam de esquerda ou de direita, vivem da instrumentalização das emoções e receios, ameaçando a racionalidade do debate público e a própria paz social. São uma forma de manipulação que tem como único objetivo atingir o poder.
A democracia liberal em que vivemos tem bastantes imperfeições. Contudo é, de longe, o regime que garantiu maior progresso, mais segurança, melhor proteção e garantia das liberdades individuais e dos diretos fundamentais, menor desigualdade, mais riqueza e maior coesão social ao longo dos nossos novecentos anos de História. Habituámo-nos a criticar o regime com uma facilidade e leviandade que ignora os factos: o número de homicídios reduziu-se em cerca de 80% desde os anos sessenta do século XX; temos um sistema de saúde que garante cobertura universal para todas as doenças graves; a escola pública assegura educação para todos, permitindo que o elevador social funcione na democracia como nunca tinha funcionado em qualquer outro período da História. Apesar disso, temos continuadamente falhado na redução da pobreza e na compreensão de alguns problemas que afligem algumas comunidades do nosso país, incluindo as gerações de jovens que se confrontam com desemprego.
É objetivamente verdade que as mulheres, os portugueses que não são brancos e aqueles que não são heterossexuais são sujeitos a discriminação, encontrando-se numa situação de maior vulnerabilidade económica e social. Os movimentos sociais e maioritariamente pacíficos que se organizaram ao longo das últimas semanas tiveram como objetivo dar visibilidade a essas situações, denunciando os riscos de uma sociedade baseada na intolerância, na discriminação e no ódio. Os episódios de violência que ocorreram em simultâneo com as manifestações pacíficas são alheios a esse movimento e representam um aproveitamento inaceitável da parte daqueles que querem dividir em vez de construir. Há quem insinue que são os extremistas de um lado que criam os extremistas do outro. Mas alguém acredita que as pessoas ficam racistas, xenófobas, homofóbicas ou misóginas porque alguém pintou uma estátua em Lisboa? Centrar o debate no combate a esses episódios não representativos é uma tentativa de fugir ao debate que importa para perpetuar o status quo vigente.
Do mesmo modo, é preciso olhar com racionalidade para as notícias de crimes perpetrados por grupos de extrema direita. Soubemos ontem que o Ministério Público acusou 27 skinheads pela prática de crimes de ódio e discriminação racial religiosa ou sexual e também de homicídio qualificado. No Estado de Direito é assim que as coisas funcionam. As ideias debatem-se com palavras e defendem-se com respeito; as decisões tomam-se nas urnas e nos órgãos políticos; a justiça faz-se nos tribunais.
Precisamos de mais pontes e de menos divisões para resolver as questões sociais que ainda nos afligem, nomeadamente a desigualdade, a pobreza e todas as discriminações. A intolerância mina a coesão e a paz social, não devendo ter lugar entre nós.
Mas voltemos ao princípio: afinal quem é que se senta nas nossas mesas? Quantas vezes permitimos que piadas e comentários racistas, machistas ou homofóbicas sejam perpetuadas nos nossos jantares, nos nossos grupos de WhatsApp e nos nossos locais de trabalho? Até onde toleramos a liberdade de ofender os outros em razão da sua cor de pele, do seu género, da sua orientação sexual ou da sua origem étnica?
Levantar a voz contra as palavras que ofendem, as decisões que discriminam e os gestos que acentuam a intolerância é uma obrigação de todos. Ao contrário do que alguns insinuam, criticar aquilo que é ofensivo não revela policiamento da linguagem mas cuidado com aqueles que se sentam nas nossas mesas. Não são as justas (e necessárias) críticas às opiniões racistas, xenófobas e homofóbicas que oprimem. O que oprime verdadeiramente aqueles que discriminam é a sua incapacidade de se reconhecer nos outros, a sua intolerância à diversidade e a sua falta de mundividência.
Quando ouço alguns que se sentam na minha mesa de privilégio dizer que souberam aproveitar com mérito e esforço as oportunidades que os seus antepassados lhes deixaram, lembro-me daqueles que, mesmo com mérito e esforço, nunca tiveram essas oportunidades. Construí-las é uma obrigação de todos.

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