Correio do Minho

Braga,

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Querido Pai Natal...

Mentira social e a mitomania

Querido Pai Natal...

Ideias

2019-12-24 às 06h00

João Marques João Marques

Já não é a primeira vez que te escrevo, mas não podia deixar de aproveitar este período para formular um conjunto de desejos que espero poderem ser atendidos. Até porque são desejos para todos e não só para mim.
Cá pelo burgo, os meus pedidos são ainda marcados pela intempérie que acabámos de viver. Chega de chuva. Bem sei que a água faz falta, mas “tudo o que é demais é erro”. Para lá do ambiente depressivo que os céus cinzentos teimam em manter, todos nós assistimos aos congestionamentos de trânsito, às estradas, muros e casas esventrados pela força das águas e dos ventos, ao caos que se abateu sobre o quotidiano dos bracarenses e, até com mais violência, sobre as vidas de concidadãos de concelhos vizinhos. O desejo é, portanto, simples: que cessem as depressões atmosféricas e que possamos esquecer por algum tempo os nomes Elsa e Fabien.
Numa nota mais positiva, pedia igualmente que as obras do mercado municipal corram nos tempos previstos e que a cidade possa ter à sua disposição mais um equipamento de referência, onde se congregue a tradição e a modernidade, os produtos típicos e a inovação gastronómica, a cultura popular e a (dita) erudita. À semelhança do Fórum e da renovada Rodovia, a expectativa é grande e o potencial nada menor.
No plano desportivo, agora que o SC Braga se encontra sem treinador, aproveitava para pedir um novo homem para o leme.

É verdade, não sou braguista, mas sou bracarense e já estranho ver um clube como este a não lutar pelos lugares cimeiros do campeonato. Honra seja feita a Sá Pinto: com ele, o Braga jogava bom futebol, sobretudo nas competições europeias, mas também no plano interno. A (in)eficácia do ataque pareceu-me ter sido a razão maior para uma saída que muitos julgariam pré-anunciada. Pode parecer cinismo, todavia quantos apostariam que seria Sá Pinto a triunfar, atenta a turbulência que rodeou a saída de Abel Ferreira? A ver vamos o que nos reservas pai Natal, mas não te enganes…Salvador já temos, falta o treinador.
Já para o país, permito-me arriscar pedir mais competência e consequências. Se o temporal dos últimos dias foi grande, as fragilidades que ficaram a nu, nada lhe ficam atrás.
É impressionante pensar que projetos de requalificação de linhas férreas, apostas estruturantes em serviços públicos de apoio à gestão de infraestruturas e de emergência, ficam repetidamente condicionados por (des)cabimento orçamental. É verdade que vivemos, ainda, em tempos de míngua, ao contrário do que alguns querem fazer crer. Tal não pode, ainda assim, justificar os cenários deso- ladores e, por vezes, terceiro-mundistas, com que as televisões e jornais nos confrontaram.

Se há investimento público necessário e imprescindível, para lá das áreas da saúde, da educação e da segurança do Estado, esse é o investimento nas infraestruturas básicas que permitem que o país opere, que as pessoas circulem e que a economia possa fluir sem constrangimentos indevidos.
As consequências não podem só advir ou resultar da reparação dos danos causados e da normalização do nosso quotidiano. As consequências têm de prover pela alteração das circunstâncias que permitem que falhas graves, como as que vimos, possam continuar a acontecer. E isso respeita à organização do Estado, ao combate à suborçamentação e “subexecução” dos orçamentos existentes, como também não pode deixar de respeitar à consciência coletiva sobre o que enfrentamos como país.

Com ou sem fé no fenómeno das alterações climáticas e nos argumentos que as explicam, o que importa é estar cada vez mais preparado para combater os seus efeitos e agir, o quanto antes, para evitar que estas condições deixem de ser a exceção e passem a ser a norma.
Por isso, caro Pai Natal, não nos tragas apenas remendos orçamentais, operações contabilísticas de duvidosa resiliência e duas ou três palavras de circunstância. Traz-nos políticas concretas e consequentes, estáveis e ambiciosas. Traz-nos, já agora, políticos que estejam ao nível desta responsabilidade. No poder e na oposição. Em Portugal e no mundo.

O que me leva ao último desejo. O chamado presente Miss Mundo, advogando a paz e a concórdia entre os povos. Sim, é isso que desejo, mas espero sobretudo que a onda dos políticos e políticas populistas seja embrulhada, não em papel festivo, mas celofane, bem apertadinhos. Para que os possamos arrumar no espaço mais acanhado do frigorífico, onde sintam os efeitos do bolor a decompô-los em fragmentos imemoriais nos quais, como dizia o poeta, “est[eja] indistinta a diferença entre nada e coisa nenhuma”.
Ah…claro, e um par de meias! Obrigado.

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