Correio do Minho

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Quinta-feira e outras memórias

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2017-02-13 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

O ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva apresenta, na próxima quinta-feira, no Centro Cultural de Belém, um livro de memórias dos seus dois mandatos em Belém. Daquilo que a imprensa foi antecipando, sobressai o retrato de um homem austero para quem o mais alto cargo da nação foi um lugar solitário.

“Quinta-feira e outros dias” é o titulo de uma obra que ajudará a fazer a História dos Presidentes da República portugueses. Nela, Cavaco Silva reflete sobre aquilo que foi a sua interpretação do cargo. O interesse nacional terá sido, nas suas palavras, a linha orientadora da sua ação, sempre estruturada pelo rigor e trabalho. E aí, havia que distinguir a opinião pública da opinião publicada.

Na verdade, ao longo de toda a sua vida política, foi sempre notório o seu afastamento das pressões mediáticas, apesar de ter vivido um tempo em que os media assumiram a centralidade da reformatação do campo político. Cavaco Silva confessa, aliás, que “teria sido um Presidente da República diferente se não tivesse chegado à mais alta magistratura do Estado saturado do palco mediático”.

Não se poderá dizer que, enquanto primeiro-ministro, sofreu muito com os jornalistas, mas, na verdade, é justo reconhecer que os últimos anos do cavaquismo foram um alvo permanente por parte de novos projetos jornalísticos que tinham na política a sua prioridade. Foi o caso do jornal “O Independente” cujo diretor Paulo Portas se revelou um crítico impiedoso de todo o governo do PSD. Foi o caso da TSF, a rádio que promoveu uma antena aberta para assuntos com forte poder de agendamento noutros media.

E foi, finalmente, o caso da SIC, o primeiro canal privado português que tanto massacrou Cavaco Silva com um posicionamento editorial de contrapoder que tão bem foi aproveitado por Mário Soares, na altura Presidente da República. Aliás, dando espaço a uma coabitação tensa que Cavaco Silva faz questão de sublinhar nesta obra.

É do relacionamento entre o PR e os diferentes primeiros-ministros que os media mais se têm ocupado por estes dias, porque este livro enfatiza as célebres reuniões de quinta-feira entre Belém e S. Bento. Cavaco Silva começa por recordar os encontros com José Sócrates que normalmente aparecia no Palácio bem preparado. Nos primeiros tempos, tinha por hábito anunciar que trazia “boas notícias”, mas, como se escreve, as palavras nem sempre de conformavam à realidade. Por isso, diz o ex-Presidente, “passei a olhar desconfiado para as boas notícias do primeiro-ministro”. Sente-se em cada anotação o ambiente algo tenso que deveria presidir àqueles encontros. Um dia, recorda-se, Sócrates atrasou-se de tal maneira que Cavaco Silva mandou dizer que já não o receberia.

Memórias diferentes são guardadas do tempo de Pedro Passos Coelho enquanto primeiro-ministro. “Apresentava-se geralmente sem uma preparação específica para as reuniões”, escreve-se para, em seguida, acrescentar-se que “tinha tendência para se alargar nas respostas”, fazendo-o com “uma preocupação de rigor e verdade”. Há também uma outra diferença em relação ao seu antecessor, que Cavaco Silva acentua: “contrariamente a José Sócrates, nunca alterava o tom de voz, exibia uma permanente tranquilidade e era diligente no envio da informação que lhe solicitava”. Também era pontual.

Afastado da vida política ativa, Cavaco Silva não terá, com esta publicação, um grande impacto mediático. Porque aquele que critica, José Sócrates, perdeu interesse jornalístico do ponto de vista do jogo político-partidário. E dos elogios, como todos sabem, não se fazem notícias, a menos que sejam completamente inesperados. O que não é o caso.

Há, no entanto, aqui um ator que, embora não sendo nomeado no livro em termos analépticos, estará no centro de parte da narrativa . É Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que iniciou uma magistratura oposta aquela que Cavaco Silva construiu ao longo de uma década. “Um Presidente não se deve condicionar pela agenda mediática”, escreve o ex-Presidente. O recado para Belém não poderia ser mais direto.

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