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Reality Shows: Normas e Ideologias

44.º aniversário do SNS

Reality Shows: Normas e Ideologias

Ideias

2023-05-26 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Tal como provavelmente com a larga maioria das pessoas, o primeiro Big Bother, em Portugal, levantou-me uma série de questões que procurei responder vendo o programa. Já lá vão mais de 20 anos – porque haveria pessoas que aceitavam a exposição pública do seu quotidiano, porque haveria tantas pessoas que escolhiam gastar tempo a conhecer o quotidiano de outros, sem culpas por tal. E que haveria no dia a dia de pessoas comuns, sem qualquer talento particular, restritas nos seus movimentos, nos seus conflitos potenciais, nas suas alianças e relações estratégicas, para justificar o interesse que globalmente foi surgindo?
Desde então, os reality shows alargaram o seu âmbito – a histórias de famílias diferentes, pessoas com problemas diversos, situações complexas de aventura em locais exóticos ou de sobrevivência em climas extremos. A sua sofisticação crescente continua a responder, dizem, a uma necessidade da natureza humana de querer saber o que os outros têm e querer o mesmo, criticando ao mesmo tempo as escolhas dos outros. Revelam “normas e ideologias da cultura contemporânea”, dizia uma socióloga (Montemurro) em 2007.

É curioso que a disseminação da internet e das redes sociais, bem como a presença de influencers em setores desde o turismo à moda, com a exposição pessoal de um número surpreendente de indivíduos por todo o mundo que a conseguem capitalizar por vezes com sucesso, não diminuiu a procura dos reality shows tradicionais. Neste contexto de alargada e reinventada influência da inteligência artificial, a televisão continua a ser o meio mais importante de cultura popular, instrumento de convergência de disseminação de normas sociais e de ideologias por todo o mundo. Hannah Arendt dizia que existir é fazer-se visível no espaço público, o que por sua vez depende da articulação entre discurso e ação. A televisão, e os media em geral, desenvolveram um espaço de visibilidade paralelo ao espaço político, que a tecnologia e a globalização fizeram convergir, normalizando o espetáculo num “eterno presente”.

E na espuma dos dias, tudo se torna mais importante e mais marcante. Depois , esquecemos e substituímos um conflito potencial pelo próximo. Esta história do adjunto de Galamba, explorada agora à procura dos minutos exatos dos telefonemas, fez-me lembrar o impacto do Independente. Para quem já não se lembra, foi um jornal , semanário, que na década de oitenta, teve um papel importante no debate político. Dizia-se ao tempo que em todas as semanas, os ministros e restantes membros do governo procuravam antecipar, com medo, o que poderia vir a aparecer. Era uma “máquina de triturar políticos”, como aliás veio a ser o título de um livro publicado em 2016.
Corria a década de oitenta, já pelo final, e o início dos anos 90. Cavaco Silva mandava no país. No seu início, o Independente era dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. As reportagens de investigação política eram habitualmente tratadas de forma sensacionalista, e as tiragens do jornal andavam na ordem dos 100.000 exemplares por edição. Cavaco Silva, na altura com uma maioria absoluta, era o “bombo da festa”, cabendo ao Independente o papel de contra poder, no contexto está bem de ver, de um projeto político de Paulo Portas. Capas como “O Pai Tirano” (Cavaco), “Vergonha” (o caso OGMA), “O Caça Ministros” (história secreta de uma remodelação), “Cavaco come a papa” (grupo privado paga viagem turística de Cavaco” e muitas, muitas outras, marcaram esse período de forma significativa, mas hoje já com muita dificuldade se conseguem aceder pela net. Paulo Portas sonhava com o “desmoronamento “ do PSD, mas o futuro que antevia, uma direita anti europeísta liderada pelo CDS, nunca se veio a materializar. O jornal acabou por ir morrendo de morte lenta até meados da década de noventa.

Hoje já ninguém se lembra do Independente, do sensacionalismo dos seus ataques aos governos liderados por Cavaco Silva, substituído por outros casos na espuma dos dias. Reality shows.
Mais importante é o anuncio de que a economia alemã acaba de entrar em recessão. O output da maior economia europeia caiu 0,3% nos primeiros três meses do ano, depois de uma contração de 0,5% no final de 2022.

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