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Recentrar a atenção…

Ideias

2022-02-21 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há muito que perpassa a ideia de que o país, não raras vezes, ou melhor, muitas vezes, não é capaz de expor e debater, reflectir e concertar o que é estruturante e determinante para si, ficando, regra geral, pelo que é mais imediato e acessório, muitas vezes, superficialmente mediatizado em nome de um momento ou circunstância coincidente.
Na verdade, há muito que se reclama capacidade para o país se centrar e focar na essência, relativizando o inócuo e a “espuma dos dias”… Ouvimos hoje tantos a “comunicar”, lemos hoje a escrita de tantos, assistimos hoje a tantos debates e diálogos televisivos, numa aparente miríade de temas (mas real acantonamento em particularidades) que transmite a leve sensação de que tanto temos com que nos preocupar e trabalhar. Mas, depois, escalpelizado tudo o que foi dito e ouvido, lido e visto, ficamos em silêncio perante temas como a seca e as alterações climáticas, a energia e a demografia, as relações comerciais e políticas internacionais (que nos afectam directamente), a nossa posição no mundo e as consequências de tal para nós próprios. Enfim, ficamos com a “espuma dos dias” e deixamos que a essência das “coisas” se vá esvaziando de solução (porque não trabalhada e assumida) e complexificando de desafios e perguntas nunca satisfeitas.

Acresce a esta realidade outra característica não raras vezes apontada e identificada: a capacidade de “empurrar o dito problema” para a frente, evitando ou contornando a resposta, disfarçando e mitigando o momento, tantas vezes adiando a resposta por medo das reacções (e não consequência), por falta de visibilidade (e não efeito), por desconfiança do ruído (e não de participação e fiscalização). Isto é, sem capacidade de ler e arriscar, de assumir tantas vezes de que o “bom é inimigo do óptimo”, que é importante fazer caminho e ir avançando (em detrimento da espera e da esperança da solução optimizada que, quando chegar, tudo resolverá a contendo de todos e de tudo), vamos vivendo quotidianamente como se o presente fosse o futuro e este não mais fosse do que a repetição do que sabemos e julgamos dominar.

Correndo o risco de generalização, hoje, percorrendo temas tão diversos quanto estruturantes, observamos que os problemas eleitorais registados nas últimas eleições, quer sobre o voto antecipado, quer sobre as condições de voto para população específica (fruto das circunstâncias especiais vividas), quer ainda sobre o voto “dos emigrantes” há muito que são conhecidos, mas que, em momento algum, foram ousadamente resolvidos. Apenas adiados; compreendemos que direccionamos o maior investimento em “barragens” e gestão de recursos hídricos para regadio intensivo e transformador de uma região pobre e, então, inexoravelmente em empobrecimento, mas que, em momento algum até hoje, fomos capazes de questionar o efeito nefasto gerado na paisagem e condições de vida das populações locais, preferindo continuar a acreditar que a economia tudo justifica e resolverá; gastamos tempo, seja de conversa, debate ou reflexão, centrados sobre se um determinado partido se deve sentar à esquerda ou à direita no hemiciclo parlamentar, sobre se determinado partido deve ou não ter direito a indicar pessoa para um determinado posto a sujeitar a eleição (democrática), não disfarçando o vazio que nos invade quando chega a hora de trabalhar no que realmente é importante; publicitamos o plano de recuperação e resiliência como a fonte financeira da superação de todas as nossas carências, reclamando acesso ao nosso “quinhão”, mas não somos capazes de corrigir o desequilíbrio da distribuição de verbas entre “o público e o privado”, os valores diminutos a projectos estruturantes e os valores expressivos destinados a projectos não debatidos e ponderados colectivamente; sabemos do envelhecimento da população e da necessidade de realinhamento de políticas sociais e opções, dir-se-á, até culturais, temendo responder à pergunta “ queremos um quarto da população delimitada a um quarto ou ambicionamos um quarto com todo o carinho emocional e conforto físico para cada um desse quarto populacional?”

Na verdade, este parece ser o verdadeiro anátema e desafio do país: a sua incapacidade em estruturar e enfrentar, preferindo reagir e contornar. Anátema e desafio, ou fatalidade, que se presente no seu mundo urbano e nas suas cidades (ou não fossem estas espelho dos países que as albergam).
Temas como a mobilidade e a habitação, o ambiente e a cultura são, recorrentemente, assinalados e são, consequentemente, afamados. Mas, talvez por isso, importa, porventura, não esquecer outros temas que, na penumbra da reflexão e debate, são tão secundarizados (sem prejuízo da respectiva relevância para o quotidiano de todos nós, do impacto para a paisagem urbana das ditas cidades). Pensa-se, por exemplo, nas ditas “construções ilegais” que proliferam por esse território fora (há muito, algumas há mesmo muito) e que, hoje, apesar de alimentadas infraestrutu- ralmente por redes públicas, sujeitarem-se a liquidações fiscais e já terem sido assimiladas por duas gerações de planos directores, ainda esperam e desesperam por uma leitura e solução global e definitiva, seja, no limite, as mais extremadas: a simples legalização ou a dolorosa demolição.

E porque o tema se julga importante e as palavras para nele se reflectir consomem espaço que começa a faltar, ao mesmo tema regressaremos, numa vontade expressa de distinguir clandestinidade e ilegalidade, ilegalidade e transgressão, numa vontade ainda maior de contribuir para uma solução que evite a eternização da dita ilegalidade urbana e, assim, evite continuar a adiar a solução e permita “olhar para a frente e avançar”…

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