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2019-04-19 às 06h00

Margarida Proença

Ele há semanas terríveis, onde parece que tudo se acumula, vindo dos mais variados quadrantes. Comecemos pelo fim, e pela maior gravidade ao fim e ao cabo: o trágico acidente na Madeira, onde 29 pessoas perderam a vida. Tinham ido passar uns dias de descanso, tinham saído para um belo dia de passeio pela ilha. 29 pessoas.
Mas a semana tinha já sido marcada pelo incêndio num dos monumentos históricos mais emblemáticos em todo o mundo, a Nôtre Dame de Paris. Esta catedral que começou a ser construída no princípio do século XII, e que veio a marcar a era das catedrais, com uma espantosa estrutura arquitetónica e escultural gótica, numa época medieval que nos habituamos a caracterizar por ignorância e obscurantismo, recheia as nossas memórias, até mesmo o imaginário das crianças a partir da adaptação ao cinema animado da obra de Vítor Hugo, envolvendo a história de amor entre um corcunda, Quasimodo, e uma bela cigana chamada Esmeralda. Mas Nôtre Dame representou sempre muito mais do que isso, muito mais mesmo que um papel central no catolicismo, desempenhou um papel importante nos acontecimentos sociais fulcrais que marcaram a história, como a Revolução Francesa ou a Comuna de Paris. Por entre este incêndio que causou sérios danos que seguramente não são irreversíveis dada a acumulação de conhecimentos e a tecnologia atual, ficam duas notas. Trump, num acesso da sua já habitual ignorância e suma arrogância, permite-se dar lições sobre a “correta” técnica para lidar com o incêndio, com base em meios aéreos. Fantástico; alguém que lhe explicasse, por favor, de que edifício se trata… Em segundo lugar, o elevadíssimo montante de ajudas financeiras que já foram conseguidos é de facto extraordinário, mas faz-nos pensar em tantos e tantos problemas sociais gravíssimos – se as pessoas quisessem, se o mundo quisesse mesmo!
Ao longo da semana, mais uma greve que criou inúmeros problemas. As pessoas, claro, entraram em pânico, e a corrida aos postos de gasolina agravou tudo. A greve é, sem dúvida alguma, um direito dos trabalhadores, que importa manter e reter. Diz que são apenas 800 os motoristas que podem fazer circular mercadorias perigosas, e que para tal têm de ter uma certificação própria, renovável por cinco anos. Trata-se de uma formação profissional acessória à obtenção da carta de condução, que no pacote base envolve cerca de 24 sessões. Os motoristas defendem o seu direito a ter salários mais elevados e melhores condições de trabalho, e seguramente terão toda a razão para tal. Argumentam ainda que muitas empresas exigem demais aos seus trabalhadores, denunciando riscos excessivos e comportamentos pouco éticos do ponto de vista legal e fiscal. A valorização e a dignificação do trabalho pagam-se, e constituem a base para desempenhos profissionais mais exigentes e de maior produtividade. A estrutura produtiva em Portugal baseia-se ainda em salários baixos, compatível com uma produtividade média baixa e com baixa eficiência, mas no quadro global em que vivemos a concorrência com base nessa estratégia deixou de fazer sentido.
Os players em jogo são privados; empresas privadas por um lado, através de uma associação de empregadores, e um sindicato por outro. Trata-se de um sindicato novo, fora de qualquer estrutura sindical, e que curiosamente divulga como vice-presidente um advogado, um não motorista. Os sindicatos são importantes na medida em que contribuem para a diminuição das assimetrias, das disparidades económicas. Mas a independência torna também muito mais difícil o seu controlo, e mais permeável a manipulações políticas.
Vivemos em rede, cada vez mais complexa, com padrões de interação múltipla cada vez mais acentuados, reforçados por uma geografia que nos coloca nesta ponta ocidental da Europa, encostada ao mar, e que tornam possível - como vimos agora - a rápida falência de setores importantes da economia. Por isso mesmo, é fundamental que, seja qual for o setor, sejam quais forem as reivindicações e a sua justiça, o poder excessivo é sempre, sempre negativo e deve ser controlado. Seja de quem for. Tudo isto alerta para a necessidade de construção de pipelines, da implementação de estruturas que contribuam para a minimização de relações de dependência.
Finalmente, o problema está para já ultrapassado, para o qual seguramente a intervenção do governo no processo de negociação parece ter sido fundamental. Podemos ir passear no Domingo de Páscoa!

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