Correio do Minho

Braga, quinta-feira

'Reencontro...', por José Silva

O Estado da União

Conta o Leitor

2012-07-21 às 06h00

Escritor

Sobe-se...
...sobe-se no serpenteado da estrada de macadame. De cada lado da ladeira há arvoredo que nasce desventurado pelas condições do clima e da época temporal do ano. A cada passo, a paisagem é deslumbrante. Mas a estrada é estreita, assusta. A encosta fica demasiado desnivelada... vê-se, lá ao fundo, um planalto não muito extenso, com algumas casas isoladas. É para ali que temos de ir.

Foi ali que viemos ao mundo, num dia de Outono, sendo o primeiro de quinze irmãos que ano após ano foram nascendo fruto de um casal que pobre nasceu já que também eles eram filhos de pais necessitados, desafortunado viveu dado que sempre trabalhou para o senhor da terra a troco de pouco mais que criar a filharada que o Criador foi dando, mas rico morreu pois fez dos seus herdeiros pessoas educadas, honradas e respeitadas na aldeia.

Continuamos a subir... mais caminho fazemos numa camioneta que deita mais fumo que as primeiras locomotivas saídas da revolução industrial. Pelo caminho vamos revisitando alguns dos locais da nossa meninice, locais onde, outrora, fomos felizes mesmo jogando à bola de trapos, descalços. Onde vigiamos o gado e fizemos pastorícia …. onde “mijámos” na buraca para ver sair o grilo… onde tantas e tantas travessuras e até judiarias praticámos. Oh belos tempos.

Que saudades desses períodos em que sendo trabalhadores da lavoura por ajuda “aos velhos” não deixámos de ser rapazes. Em que para aprendermos as primeiras letras muitas e muitas vezes levamos com a “cinco olhinhos”, pobre mestre-escola que passava mais de meio tempo do horário a “aquecer” as nossas pobres mãos, por isso muitos fugiram da escola e ficaram analfabetos para a sua existência, mas drºs para o trabalho e para a vida.

Eis-nos chegados à entrada do povoado. A camioneta para. Chegamos. Estamos no fim do Verão, o céu é azul. A tarde ainda brilha. No ar corre uma leve brisa. Cheira ao pó da terra. As lágrimas correm-nos pela face. Pudera, já não vimos à terra para lá de três décadas!

Tudo está muito diferente desde o dia em que abandonamos este lugar para embarcarmos e atravessarmos o grande mar e irmos na busca de outra sina que não a que nos estava destinada: ser força de trabalho para os “senhores da terra” a troco de uma côdea de broa.

Quem nos espera? A família, família que não conheço, pois meus irmãos eram crianças quando eu “fugi” deles. Apresentam-me suas esposas, mostram-me os seus rebentos alguns deles também já casados. Meu Deus, que sensação! Ver gente que tem o mesmo sangue que aquele que me corre nas veias e que eu jamais vira. Que me pertencem. Que são minha família!
- Onde está meu pai? - pergunto.

Minha irmã mais nova, a única que me visitara um dia, logo replicou:
- Está em casa. Espera-te. Está ansioso por te ver. Nem acredita que é verdade o teu regresso.
Dirigimo-nos para casa. Atrás de mim vem a família. Somos tantos que até parece mais um cortejo. Chegamos.

Nosso pai já está perto dos noventa. Quem de nós os dois aguentará melhor este reencontro depois de tantos anos de afastamento físico? Sim, físico, dado que as tecnologias tornaram perto o que está longe e foi-nos permitindo saber as “bisbilhotices” da terra via telefone.

Aproximamo-nos da loja, lugar onde meu pai costuma estacionar os ossos e as suas artroses e pegar na malga para beber o seu tinto “carrascão” que outrora produzia mas que agora é-lhe fornecido por um dos seus herdeiros. Meus irmãos passam para a frente, abrem a porta de velho carvalho, já esventrada pelo caruncho e lá está ele. Ele é a pessoa viva mais importante e significativa para nós. É nosso pai. Trememos ao aproximar-nos. Abraçamo-nos. Longamente nos abraçamos. Beijamo-nos. Que ternura a nossa. Eis o filho pródigo que chega, parece a parábola das escrituras. Por momentos o tempo parece parado. Nosso pai solta uma lágrima. Comovem-se os presentes, não é para menos pois é um quadro de reencontro de quem se ama, de quem usa o mesmo apelido e tem o mesmo sangue a correr nas veias.

Não há palavras no ar. O silêncio impera.
O velhote, homem calejado e queimado pelas jornadas passadas na lavoura, tenta desanuviar o ambiente e com a sua voz autoritária de chefe de família a quem toda a gente obedece e mima, diz:
- Todos para a mesa! Brindemos ao “Regressado”.

E, então, todos bebem, incluindo a sobrinhada que se atira às bebidas da moda.
Aproxima-se a noite. O patriarca da família já tinha combinado com nossas irmãs a feitura de um jantar onde um leitão já estava enfiado no velho forno pronto a ser assado para posteriormente ser desgostado pelos presentes. Nosso progenitor fez questão que este dia fosse de festa e disponibilizou a sua parca reforma para o banquete, fez questão de cobrir os gastos. “Onde há homem, não paga mulher”.

Enquanto as afamadas e dedicadas cozinheiras preparam a ceia para a família, metemos o braço ao pai e, a custo, lá conseguimos arrancá-lo do seu velho banco e na sua companhia quisemos ir dar uma volta pelo lugar.

Mas antes de calcorrearmos os lugarejos da aldeia um lugar tínhamos de visitar: o cemitério. Nosso pai fez-nos a vontade. De braço dado e com algum esforço, lentamente, lá fomos. Guiados pelo pai chegamos à campa onde estão depositados os restos mortais daquela que nos deu vida, juntamente com os dos pais dela. Rememorámos nosso passado… pedimos desculpa por não estarmos presentes no dia em que desceu à terra depois de dias de sofrimento pela maldita brônquite que a foi torturando ao longo dos anos. Não aguentámos e, eu e meu pai, choramos ao depositar uma simples rosa junto do retrato dela.

Regressamos a casa, mas a noite está convidativa para uma breve caminhada e por isso vamos por um carreiro mais longo e que dá para visitar o velho largo onde outrora se reuniam os homens de um lado e o mulherio do outro, com a criançada ao meio nas suas brincadeiras.

Paramos no largo. À nossa esquerda lá está a Igreja, agora de portas fechadas pois dizem que nem os templos resistem à malandragem nos tempos que correm. Deixamos a visita para outro dia. À nossa direita, lá está a velha tasca agora dirigida pelo filho do Ti Luís. Na porta de entrada num quadro de ardósia anuncia-se: “venda de iscas e de pataniscas”. Vê-se ainda um pipo colocado em cima de um estrado, uma bacia com bacalhau demolhado que em cada posta ou badana tem escrito a giz o preço. Na ombreira da porta um ramo de loureiro acampa ali.

Parece convidar-nos para um copo, ou melhor, para um “moscatel” guiado a abrir o apetite.
Entramos. Logo o agora dono faz uma saudação efusiva ao velhote e um determinado e especial cumprimento à nossa pessoa. Os demais presentes, alguns nossos velhos conhecidos dos bancos da escola, nos saúdam de forma afetuosa e expansiva. Em pouco tempo, o velhote expõe, a pinceladas largas, a nossa história de vida. Acabamos por pagar, como é da tradição de quem chega, uma rodada ao pessoal presente.

Despedimo-nos daquele local. Vamos em direção a casa já que se fazem horas e o “suíno” deve estar a espalhar o seu odor pela cozinha. Converso com o velhote sobre como tem sido o seu viver, mas ele está mais interessado em saber o que me trás à terra e as novidades que lhe tenho para contar.

No caminho para a residência, feito em passo lento, cruzámo-nos com uma moçoila, cabelo negro, mulher bem nutrida e constituída, que se via ter anos de trabalho muitos deles na agricultura. Nosso pai, saúda-a e vai-nos verbalizando que é a filha da Ti Maria e que o povo da aldeia diz que é a amiga do Zé-sacristão e que até já tinha feito um “desmancho” dele e que por isso é que estava solteirona. Quase a chegar a casa, encontramos o Reverendo Abade, agora também gasto pelos anos mas com uma barriga típica de quem vive bem e é bem tratado pelos paroquianos. Este reencontro, inesperado e imprevisível, parece abençoar a nossa chegada.

Saudámo-nos efusivamente. E o Abade dá-nos a sua bênção e faz-nos recordar os tempos em que o ajudávamos na missa e nas solenidades religiosas, incluindo os funerais.

Nosso pai que o tratava o “tu” quando com ele estava em privado, diz-lhe:
- Hoje, que tenho aqui o meu rapaz mais velho, vens jantar lá a casa.
Convite aceite pelo Abade, que verdade seja dita sempre gostou de bom alimento e de um bom digestivo, lá fomos recordando histórias do passado.

Chegados a casa. Mesa posta. Família reunida. Abade convidado. A ceia foi até de madrugada, com muita “tretice” à mistura.

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