Correio do Minho

Braga, sábado

Regresso às aulas (2)

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Escreve quem sabe

2011-09-17 às 06h00

Fernando Viana

João está numa das primeiras aulas deste ano lectivo. A professora ensina regras básicas de segurança rodoviária: atravessar a rua em locais seguros; na passadeira; na passagem para peões junto a semáforos, em passagens protegidas superiores ou inferiores à via.
No final das aulas, a mãe de João está como sempre à sua espera com um sorriso nos lábios. Depois de lhe dar um beijo e de lhe perguntar como correu o dia, pega-lhe na mão e começam a caminhar rua abaixo em direcção a casa. Porém, em vez de ir até à passadeira para peões, atravessa a rua na diagonal. João pergunta: ”Mãe, porque não atravessamos na passadeira?”. A mãe responde que a passadeira é longe, assim é mais perto. João fica confuso. Na escola ensinam-lhe coisas que, fora da sala de aula, fazem-se de maneira diferente.
Também a professora já saiu da escola. Vai com o pé apressado, que ainda tem voltas a dar. Ao chegar ao cruzamento, o semáforo para os peões está vermelho, mas a professora atravessa a rua, depois de verificar que o carro mais próximo está a cerca de 50 metros.
Apesar de básico, este exemplo reflecte algumas incongruências do nosso sistema educativo. Nos bancos da escola os alunos aprendem diversas matérias, mas depois cá fora, os comportamentos são diferentes.
Era bom que no ano escolar que agora começa, pais, professores e alunos, responsáveis educativos, enfim todos fizéssemos um esforço por juntar a teoria à prática.
Caso contrário, continuaremos a despender recursos, que hoje são mais escassos que nunca, de forma inútil. O nosso sistema educativo está alicerçado num conjunto de disciplinas, temas, conteúdos programáticos e objectivos, enfim uma grande panóplia que, dada a sua extensão e obrigatoriedade, muitas vezes é leccionada a correr, sem qualquer preocupação por um efectivo processo de sedimentação e de forma mecânica, sem possibilidade de separar o trigo do joio.
Os resultados, contraditórios, estão à vista. Se atentarmos nas estatísticas oficiais, verificamos que referem que Portugal está no topo da lista com maior percentagem de diplomados com o ensino secundário de entre os países da OCDE.
Porém, no dia-a-dia ficamos estupefactos com a ignorância que muitos alunos revelam, com a forma como falam e se comportam. Consumistas, mal educados, sem qualquer consciência ambiental ou cívica, muitos jovens estão apenas preocupados com o último gadjet em telemóveis, com o penteado ou com a roupa da marca da moda.
Muitas teorias educativas foram ao longo destes anos ensaiadas pelo Ministério da Educação. Mas a que mais êxito teve foi sem dúvida a teoria da burocracia que transformou os professores em burocratas obrigados ao preenchimento de documentos sem fim e a passar os alunos para o ano seguinte.
Que fique claro que não olvido a responsabilidade de pais e encarregados de educação neste processo, nem que existem muitos jovens que não se revêem nesta imagem que tracei.
Mas é um facto que, hoje como nunca, temos uma população com um maior nível de educação formal. Paradoxalmente, também pressentimos que a sociedade está cada vez mais desumanizada, violenta, artificial e caótica.
Passei anos a ouvir falar numa Educação para os Valores. Onde estão? Urge encontrá-los.

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