Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Reinventemos os primeiros dias na escola

‘O que a Europa faz por si’

Escreve quem sabe

2013-10-08 às 06h00

Cristina Palhares

Opós-modernismo favorece as “mini-narrativas”, histórias que explicam práticas e acontecimentos locais em detrimento dos conceitos globais. As “mini-narrativas” pós-modernas são sempre situacionais, provisórias, contingentes e temporárias não reclamando universalidade, verdade, razão ou estabilidade (Vale Dias, 2000).
O que me proponho fazer neste e nos próximos artigos: reflexão sobre educação, aprendizagem, precocidade, diversidade, intervenção pedagógica, a partir de uma narrativa que em tempos escrevi.

E que começava assim:
“Pela janela do meu quarto, pequeno e acolhedor, vislumbro, como se a noite falasse, o céu negro cheio de estrelas brilhantes, cintilantes, que sussurram o meu passado. Hoje, tenho 13 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. Tal como a noite que me entra pela janela do meu quarto... Mas nem sempre foi assim. Não o foi de todo! E tu, minha folha branca, a quem resolvi contar serás a testemunha que eu sempre precisei e que nunca tive. Nunca, mesmo.

Hoje entendo porque ninguém me entendia. Mas foi difícil, tal como é difícil recordar novamente e escrever-te: o meu primeiro dia no mundo... Foi tudo tão rápido... coitada da minha mãe. Mas, nasci com 33 semanas, 3,300 Kg e 53 cm. Tantos três... Tudo dentro da normalidade tal como disse o médico à minha mãe. Mas estava a crescer e uma das primeiras coisas que aprendi foi a olhar para a minha mão. Como eu palrava muito e não dizia nada de jeito, as primeiras palavras foram um verdadeiro milagre. Até já tinham dito aos meus pais que eu devia ser um bocado atrasada... Coitados! Foi a maior das surpresas.

Nos dias seguintes as palavras novas já não cabiam no álbum que os meus pais iam fazendo... ao fim de 30 dias já formava pequenas frases e foi assim que de atrasada passaram a dizer aos meus pais que algo devia estar a acontecer comigo... não era normal uma menina tão pequenina (24 meses) ter já um vocabulário tão vasto e uma linguagem tão desenvolvida. Vai lá alguém entendê-los!... E pior que isso... tropeçava, caía, preferia arrastar-me do que andar a pé, e correr não era comigo.

Foi mais ou menos por esta altura que eu comecei a escrever recados, tal como fazia a minha mãe. Despir e vestir bonecas era tão chato... Mas ensinar-lhes os números e as letras e mostrar-lhes histórias que eu lia era bem mais divertido. No fim do dia a educadora contava sempre à minha mãe o que eu tinha feito: contava histórias pelos livros aos meninos, pegava-lhes na mão para os ensinar a pintar, arrumava a sala toda... enfim, era feliz e fui-o até aos 5 anos.

Estava ansiosa por poder passar o dia numa secretária. (Algumas diferenças de desenvolvimento e caraterísticas mais comuns da criança de 3 a 5 anos, incidindo na precocidade: (I) Em geral são crianças com um desenvolvimento motor e atenção precoces desde o primeiro dia do seu nascimento; (II) Têm uma capacidade excecional de atenção, observação e memória; (III) Em geral aprendem a ler antes de frequentar a escola ou num muito curto espaço de tempo, mostrando sempre um vocabulário avançado, assim como um grande interesse pela leitura; (IV)

Desde muito cedo fazem perguntas exploratórias e não se conformam com uma resposta qualquer; (V) Grande sensibilidade ao mundo que as rodeia e profundas preocupações; (VI) Desenvolvimento precoce da maturação percetiva e memória visual; (VII) Alta capacidade criativa; (VIII) Capacidade excecional de aprendizagem, implicando por vezes que as experiências da escola se tornem lentas e repetitivas. (Benito, 1992)).

“E cedo chegou o meu primeiro dia de aulas. Foi o máximo. Adorei poder mostrar os meus livros e cadernos novos, a minha pasta nova e, principalmente o meu estojo. Consegui levar tantas coisas no estojo que fizeram a inveja dos meus amigos. Eu mostrei tudo com muito orgulho, mas queria era começar a usar. E sabes? Afinal nestes meus primeiros dias pouco aprendi. Foram uma seca... Tudo o que eu escrevia e lia não tinha importância. Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada. Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas.”

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