Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Retalhos da vida de uma criança

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2015-03-30 às 06h00

Carlos Pires

-”E nada mais somos do que o Poema onde as crianças se distanciam loucamente.”
Herberto Helder- ‘Ofício Cantante’

Maria tem 9 anos de idade e frequenta o 4º ano de escolaridade.
O mês de Março está a revelar-se especialmente trabalhoso, em termos de tarefas escolares. Atendendo à proximidade da data fixada para a realização dos exames nacionais do 4º ano (nas disciplinas de português e da matemática), já em Maio, a professora tem sido especialmente exigente e reforçou os trabalhos para casa (TPC) naquelas duas áreas do saber. Para desaire de Maria, que vê a sua disciplina preferida - Estudo do Meio - relegada para segundo plano, simplesmente porque não é objeto do exame.

A escola está preocupada com os resultados dos alunos, disso depende a manutenção de um bom lugar no ranking nacional de escolas, tão tido em conta pelos pais na hora de escolher o estabelecimento de ensino para os filhos. Todas as semanas os alunos são sujeitos a testes - de forma a, dizem, habituarem-se ao figurino e ao ritual do exame.
Nas vitrinas da escola ostentam-se pautas, com notas individuais e nominais.

As aulas, a que acrescem os tempos com aulas extra de preparação para os exames, terminam às 16:00 horas. E Maria, consoante o dia da semana em causa, segue diretamente para as aulas de piano, inglês e ballet, as chamadas disciplinas extracurriculares. Este ano, de forma a poder preparar-se melhor para os exames, Maria desistiu das aulas de mandarim.

Às 18 horas Maria chega a casa. Esperam-na os TPC, fichas (mais do que uma!) de matemática e de português, com a supervisão do pai, logo que este regressa do trabalho. No período de tempo pós jantar e antes de ir dormir, pouco ou nenhum tempo sobra para os jogos com o irmão.
O dia de “trabalho” de Maria iniciou às 8:30 e terminou às 20:00h. São 10 horas diárias, 50 horas semanais, tudo sem prejuízo dos tempos despendidos com os (muitos) deveres escolares que a professora marca para o fim-de-semana.

Tenho a certeza de que muitos leitores reviram na história de Maria a jornada de outras crianças, que bem conhecem - filhos, ou familiares, ou ainda filhos de amigos.
Uns frequentam o ensino privado, outros estão na escola pública.
Contudo, a filosofia que impera é a mesma: as crianças portuguesas entre os 6 e os 10 anos de idade trabalham como alunas mais do que os adultos. Cada vez têm menos tempo para a família, para as relações interpessoais. Cada vez têm menos tempo para algo tão simples - e que constitui um seu direito: o de brincar. E o quanto se pode aprender brincando…

A cultura da nota está instalada em Portugal. Com a anuência de todos, políticos, professores e pais.
A avaliação sumativa sobrepôs-se à avaliação formativa. O que desde logo acarreta que não haja tempo para o diagnóstico das necessidades de aprendizagem e orientação dos alunos. Ainda, os programas são exigentes; as matérias do atual 4º ano eram, há uns anos atrás, lecionadas apenas no 6º ano. Os exames - importantes para validar conhecimentos no sistema de ensino - iniciam numa fase (demasiado) inicial do ensino, ora reconduzido a um mero processo rotineiro de memorização da informação.

Não sou especialista em questões de educação. Mas há algo nisto tudo que, intuo, poderá ter resultados desastrosos. Infelizmente já me habituei a que, no nosso país, se vá do “oito para o oitenta”. E o ensino não constituirá exceção, fruto dos sucessivos experimentalismos e diferentes políticas a que tem sido sujeito. O que me causa apreensão, porque afinal é do “futuro” de que estamos a falar.

PS. Morreu o poeta Herberto Helder, considerado por muitos o maior poeta português da segunda metade do século XX. Comparado a Camões ou a Fernando Pessoa. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra, galardão que o mesmo recusou e pediu ao júri que não o anunciassem como vencedor e dessem o prémio a outro. Mais do que nunca, é hora de ler a sua poesia. A melhor forma de lhe agradecer o inestimável contributo para a cultura portuguesa. E poder assim mantê-lo vivo.

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