Correio do Minho

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Retórica…

Quem me dera voltar a ser Criança

Voz às Escolas

2016-12-15 às 06h00

Luisa Rodrigues Luisa Rodrigues

Aanálise dos resultados tem levado à proliferação de momentos de excelente retórica por parte da tutela, mas que, na sua generalidade, não passam disso mesmo - palavras, palavras essas que atingem o limiar do hilariante, se atentarmos, por exemplo, ao conteúdo da Nota Informativa sobre o estudo realizado quanto ao impacto das desigualdades socioeconómicas nos resultados escolares, e à brilhante conclusão a que os estudiosos chegaram de que “No total nacional, o nível socioeconómico dos agregados familiares é um preditor do sucesso escolar, na medida em que os alunos oriundos de famílias de baixos rendimentos apresentam taxas de sucesso mais baixas.”
Embora não sendo uma verdade absoluta, o certo é que todos sabemos que há uma correlação causa/efeito entre as condições em que vive uma “fatia” significativa dos alunos, sobretudo nas zonas mais fustigadas pelo desemprego e pelo desenraizamento das populações, razão pela qual os rankings das escolas são a fotografia mais distorcida da realidade, em que as assimetrias regionais e as condicionantes que envolvem as escolas não são sequer tidas em conta.
Devemos congratular-nos com as conclusões versadas na referida nota informativa, mas em verdade não podemos deixar de lhe atribuir um carater “cómico”, tendo em conta a extemporaneidade das conclusões a que chegaram os nossos estudiosos sobre uma matéria que, como diz o povo, “tem barbas”, e que teriam algum significado se proferidas há uns bons anos atrás.
Não negamos a atualidade da matéria, mas a inoportunidade da divulgação dos resultados que nada trazem de inovador, mais se assemelhando a um exercício de penitência pela falta de respostas que tem sido dadas às escolas para tentarem minimizar os efeitos de uma realidade cuja revolução cabe ao poder político e não à escola.
“O papel da escola é crucial” e “Nesse sentido, os resultados obrigam a que se continue a centrar a ação naquela que constitui uma das funções primordiais da escola pública: o nivelamento de oportunidades entre crianças oriundas de diversos meios socioeconómicos… A intervenção tem, pois, de continuar a ser o resultado de uma combinação coerente entre políticas educativas, de formação e de âmbito social alargado.” - Agora, sim, vergo-me perante a minha ignorância, pois desconheço a existência da tal “combinação” a que o estudo se refere, pelo que apelo a que se explicite, sem fantasiar, o verdadeiro sentido de tão douta conclusão.
O documento refere a importância da existência de um compromisso social em torno do sucesso escolar e aponta algumas das medidas já em curso com vista à recentralização da ação na melhoria das aprendizagens, ignorando que a jusante está o cerne da questão - a recentralização da ação na recuperação da escola e dos professores, devolvendo-lhes a credibilidade e o estatuto profissional que lhes foi sendo roubado, porque sem escola e sem professores de nada servem as medidas para a melhoria dos resultados.
Começamos a ficar cansados de análises e de decisões que continuam a ser produzidas no sentido inverso ao grau de importância de que se revestem, como se fosse possível mobilar a casa antes de a construir. A intervenção deveria ser dirigida, primeiramente, à escola, enquanto instituição, e aos seus atores, enquanto obreiros de qualquer transformação que se pretenda implementar, ouvindo-os, respeitando-os e acolhendo algumas das propostas que gostariam de ver plasmadas nos normativos emanados da tutela, propostas essas que resultam de práticas implementadas para além dos projetos que vão surgindo no âmbito da melhoria das aprendizagens.
A nota informativa destaca algumas medidas já em curso, relativamente ao conteúdo de algumas das quais gostaríamos de nos pronunciar: - “ A dinamização de formação contínua de apoio à elaboração dos planos de ação estratégica e à sua implementação”- correto, mas apenas no que concerne a formação para a elaboração dos PAE. Prevê-se o envolvimento de milhares de professores em ações de formação, num período de dois anos, mas para quando o financiamento que permita dar início ao processo? Não estava previsto formar para melhorar as práticas e, consequentemente, os resultados?; - “A promoção do envolvimento das Comunidades Intermunicipais (CIM) na dinamização destes planos. Desta forma, é potenciada a convergência entre as iniciativas das CIM no domínio da Educação e os planos elaborados pelas escolas, tendo como finalidade a melhoria das aprendizagens, a diminuição do insucesso e do abandono escolar” - não sei se entendi bem, mas dando o benefício da dúvida limito-me, apenas, a perguntar - para quando? Devem ser as escolas a dar o primeiro passo para potenciar a dita “convergência”? E, já agora, o que está em jogo quando se fala de envolvimento e de convergência?
Talvez a revolta pelo papel de vendedores de sonhos “envenenados” em que nos vimos envolvidos, no final do ano letivo transacto, quando através da divulgação do PAE tentámos incutir algum ânimo e esperança naqueles que, com ou sem medidas, fazem milagres em prol dos alunos e da melhoria dos seus resultados escolares, ainda não tenha sido ultrapassada, mas que todo este processo é um tanto ou quanto cinzento…
Talvez a crónica de dezembro devesse revestir-se do esperado espírito natalício, mas dezembro é, também, o último mês do ano, um ano em que as promessas proliferaram e pouco ou nada mudou.
Desejo a todos um Excelente Natal e um Novo Ano com muita saúde e muita paz, porque quanto ao resto…tenho dito.

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