Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Revisitar o passado

Sinais de pontuação

Ideias

2017-02-14 às 06h00

Jorge Cruz

O presidente da Câmara Municipal de Braga continua a contrariar as ideias e posições públicas assumidas anos atrás por Ricardo Rio, então líder da oposição. São diversos os casos que confirmam essa tendência mas nos últimos dias alguns acontecimentos adquiriram maior visibilidade pública.
Dispenso-me, agora, de abordar as controversas questões relacionadas com a implantação de superfícies comerciais no centro da cidade, embora preveja que ainda vai correr muita tinta, com a mais que previsível autorização de novas unidades. Deixo, pois, esses exemplos de incoerência política, de clara inconsequência ideológica e postura pessoal, para outra oportunidade, ciente como estou de que, para desgraça dos bracarenses, as ocasiões não vão faltar.

Centremo-nos, então, em dois outros acontecimentos. O primeiro, que se prende (salvo seja!) com a Polícia Municipal (PM), decorre de uma denúncia do vereador socialista Gil Sousa sobre situações graves, nomeadamente o desaparecimento da chave do armeiro daquela polícia e a aparição de munições, de arma diferente das que são utilizadas pela PM, espalhadas pelo chão da esquadra. O vereador socialista referiu ainda o uso ilegal de divisas por parte de dois elementos da PM, “como se fossem graduados”, quando não há diferentes graduações. Em resposta, Ricardo Rio disse o óbvio, ou seja, reconheceu que “não está tudo bem na Polícia Municipal” mas não abordou uma questão que, nesta discussão é fulcral - o facto incontornável de a PM estar sem comandante há cerca de três anos! Percebe-se a intenção.

A demissão irrevogável do último comandante da Polícia Municipal, Coronel Amado Vareta, em 2014, ficou a dever-se a alegadas ocorrências de enorme gravidade, e, desde então, não são conhecidas quaisquer diligências quer para a nomeação de um novo comandante quer para evitar a repetição de situações anormais, como estas que agora foram denunciadas.
Deste ponto de vista, não surpreende o incómodo manifestado pelo presidente da Câmara ao considerar lamentáveis as denúncias de situações irregulares. Mais grave e a lembrar posturas trumpistas será a manobra de contra-ataque que experimentou ao acusar a oposição socialista de “falta de respeito e tentativa de retirar confiança” à PM.

Ou seja, Rio confirmou os factos denunciados mas desvalorizou-os classificando-os como “um gesto provocatório e de insubordinação” e asseverando que “internamente foram desenvolvidas todas as diligências para mitigar essas situações”. Já na questão das divisas nas fardas, reconheceu que “são todos profissionais com a mesma natureza” mas legitima a sua utilização com “a necessidade óbvia de demonstrar que uns são coordenadores e outros não”.

Curiosamente, o presidente da Câmara não terá determinado a participação, como lhe compete, às autoridades competentes já que algumas situações parecem configurar ocorrências de extrema gravidade. Ricardo Rio optou pela atitude mais ou menos normalizada entre os políticos que lidam mal com as críticas, ou seja, atacar ferozmente o mensageiro, numa tentativa de desviar as atenções. Esqueceu-se, contudo, que ele próprio, quando vereador da oposição, em 2007, também fez denúncias sobre a mesma PM.
A segunda questão que quero trazer à reflexão tem a ver com mobilidade.

No programa sufragado em finais de 2013, a coligação de direita Juntos por Braga prometia a “introdução de novas ciclovias e promoção de modos suaves de transporte” mas, chegados a 2017, contata-se a inacção quase total nesta área. Aliás, em Abril do ano passado as previsões do município indicavam que em 2025 haveria 18 mil pessoas a usar a bicicleta como meio de deslocação mas, há uns dias, Ricardo Rio corrigiu esse acto de adivinhação para a dezena de milhar de utilizadores regulares de bicicleta.

Esta é mais uma demonstração cabal de um exercício frustrado e frustrante de gestão municipal, de um desempenho político que cedo abandonou os compromissos eleitorais. A opção recorrente por uma política de “pão e circo” (muito utilizada na Roma antiga mas infelizmente ainda atual hoje em dia) não é mais do que o reconhecimento implícito da incapacidade de resolver os verdadeiros problemas. A intenção é óbvia: fazer esquecer o essencial, as questões que preocupam as populações, e extasiar e anestesiar os eleitores com o acessório para tentar orientar o sentido do seu voto.

Percebe-se que a coligação de direita tenta fazer olvidar que se comprometeu com a “criação do Fundo de Investimento Imobiliário de apoio à Renovação Urbana do Centro Histórico”; com o “desenvolvimento do projecto para Interface de Transportes na envolvente da estação de caminho-de-ferro”; com a “promoção de um plano de incentivo ao arrendamento jovem no Centro Histórico”; e com a “religação pedonal da Rua Nova de Santa Cruz à Rua D. Pedro V”. Isto para só enumerar alguns exemplos e não me tornar fastidioso.

O grande problema para a coligação, agora que as autárquicas se aproximam é que todas estas promessas, todos estes compromissos, não passaram do papel. Mas se o incumprimento é grave e pode ser penalizador para Ricardo Rio, é bastante mais duro para as populações que confiaram o seu voto a quem afinal não honrou os compromissos. Estas são quem mais sofrem com a incapacidade daqueles em quem depositaram todas as suas esperanças.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.