Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Ruído de fundo

O direito a ser criança

Ruído de fundo

Voz aos Escritores

2019-09-27 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Olhares afagam as relações suspensas pelos meses de descanso longe, em paisagens fora das habituais. Brilham horizontes e reencontros, cintilam as histórias à beira da boca, suspensas por um bocado de tempo para se soltarem em ansiedades, qual cavalos de corrida.
Eu fui à praia. Eu fui à piscina. Vi um caranguejo com uma pata partida. Andei de avião. Andei de barco. Aprendi a andar de bicicleta. Já sei nadar. Estive com os meus avós. Nasceu o meu irmão. Fiz um castelo de areia com o meu pai.

A euforia sucede-se em novidades de vida, novelos e acrescentos. Somas de crescimento, de alargamento de horizontes e caminhos desbravados. A alegria de crescer na ponta da língua.
- Os meus pais divorciaram-se.
A expressão aparente de alegria, como quem conta uma boa novidade, foi rasgada pelas palavras.
- Os meus pais divorciaram-se.
As palavras a procurarem sentido entre as redes neuronais do cérebro, para não se enganar por aquela expressão quase angelical da infância, o sorriso nos lábios pueris. A vida lembra que pode ser um alívio, acabam-se as discussões e é, francamente, uma vida melhor para todos. Mas o olhar procurava um brilho que não tinha, um disfarce para uma tristeza bem lá guardada, no fundo de algum recanto encontrado, criado para este novo sentir.
- Olha, a parte boa é que vais ter duas casas. Que sorte!
Foi a única coisa que consegui deitar boca fora para agarrar com ela, aquela criança ali numa corda sem rede, com muita força, toda a que consegui reunir ali, aquele sorriso inocente, um pouco perdido até, quase belo de dor, e deixar cair o silêncio que entretanto se agigantava.
- Pois é.

Rematou com o mesmo sorriso que se engrandeceu até aos olhos, a tentar uma combinação de encaixe, a concentrar-se no que é bom, no que conseguimos agarrar, ao estilo de A vida é bela, é só nós querermos muito e acontece. E naquele momento quisemos as duas que fosse assim e se escrevêssemos esta história seria assim mesmo. Como quem teve de comprar um vestido que não quis, que não gosta, mas que tem de usar. O corpo lá se acaba por adaptar, ganha forma e até se acomoda com satisfação. Alguma. Sem mais ondas ou tempestades.
Não serei eu dizer-lhe que ganhou duas casas, uma do pai e outra da mãe, para perder a sua. Pelo menos a sua casa da infância e da adolescência. Mais tarde, na idade adulta terá, muito provavelmente, a sua. É engraçado como não prestamos muita atenção a certas palavras ou modos de dizer. Vou passar o fim-de-semana a casa do meu pai. Esta semana vou estar na casa da minha mãe. E assim, com esta naturalidade, a criança deixa de ter uma casa sua. Provavelmente nunca mais dirá queres vir brincar para a minha casa. Talvez até só volte a usar a expressão minha casa quando tiver uma casa sua na idade adulta.

Não serei eu a dizer-lhe que os Natais serão agridoces, um vazio cruel que tentamos não ver, encher tudo de iluminação até cegarmos e conseguirmos fielmente ignorar aquele espaço que ali está sem sabermos o que fazer com ele. Não serei eu a dizer-lhe que irão crescer dualidades, formas distintas de estar e de se comportar, de se relacionar com o contexto envolvente. Não serei eu a dizer-lhe que crescer vai ser desafiante, como o é sempre, mais com aquele espaço que tentamos preencher com coisas diferentes que nunca encaixam, nunca cabem, nunca se acomodam.

Às vezes consegue-se mascarar, mas por pouco tempo. Não serei eu a dizer-lhe que não vale a pena, que o melhor é aceitar e deixar estar, sossegadinho, sem mexer muito, a fazer um silêncio daninho que de quando em vez se olha de frente, se reconhece, quem sabe a seu tempo até se acarinha porque faz parte de nós, cresceu connosco, está ali, sabe a nossa história. Só porque sim, até.
Também não serei eu a dizer-lhe para ignorar as vozes que lhe perguntarem se gosta mais do pai ou da mãe, que não vale a pena dar créditos da existência a entendimentos tão mesquinhos, como se o amor se medisse, como se fosse uma competição, como se no coração de uma criança não coubessem todos com bagagens e sem armas.
Não serei eu a dizer-lhe. Mas é bom que alguém lhe diga.

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