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Sê de Pedra!

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Sê de Pedra!

Voz aos Escritores

2020-11-06 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Acariciava, calado, a lisura do silêncio. Perguntava-se, como Caeiro, se as pedras escreviam versos, se as plantas escreviam versos, e concluía definitivamente que não, mas, ao mesmo tempo, sentia que sim, que a poesia estava ali, e que as pedras e as plantas construíam belíssimos poemas, e que a ele não restava senão lê-los nos papiros da sua imaginação. Estava só, junto à pedra cinzenta do Gedeão, e ouvia um apelo angustiante, saído das entranhas indiferentes do infeliz António Nobre: «Sê de pedra! Sê de pedra!». E imaginava-se desligado do mundo, livre, seguindo o voo das aves por entre os penhascos. Havia com certeza por lá ramos e rosas, porque a voz, ébria de sons e perfumada, crescia nessa pedra.
Um dia, no jardim do Largo de Quintela, aquele que foi barão, entre palmeiras descarnadas, vira a imponência da pedra na figura do grande Eça. Apaixonou-se por ela, e deu por si às voltas dos sermões do Vieira, do desbaste dos rochedos, e do «estatuário» que cinzelava índios na busca da suprema santidade. Desbastar, cinzelar, lavrar pedras, criar perenidades na arte, na literatura, em toda a humanidade. Encontrar, talvez, a pedra filosofal. Desde aí, assumiu a importância da pedra na história humana, saltou a Petra, na Jordânia, mergulhou nas origens latinas da palavra, reconheceu a sonorização da consoante surda, explorou recantos lexicais e estrondos semânticos, abraçando, finalmente, de forma firme e enlevada, expressões correntes, formas fixas e ditados, achados linguísticos como a jangada de pedra que Saramago jamais deixaria afundar.
Como nos disse o Ricardo, cada um cumpre o destino que lhe cumpre, cada um de nós como as pedras na orla dos canteiros. Por vezes, ouvimos a união sonora do ferro e da pedra, reminiscências do Cesário, e saltamos do real para a metáfora, tornando-nos brutos como ela. Ela que, coitada, tem em si a voz das flores e a maciez das rosas. Que mal fez a pedra ao mundo para ser polida pelos ociosos, ou para se metaforizar em coração sem o mínimo sentimento? Por que razão o nosso caminho vital está cheiinho delas, que entram, inclusive, e com muita facilidade, nos nossos próprios sapatos? Os otimistas, como o Cury, vão-nas guardando, sonhando construir com elas belíssimos castelos. Filosofia chã, que aproveita do penedo a poesia.
Escutava como se a pedra cantasse. Chamava-se Eugénio e cantava com a pedra. Uma pedra angular, portanto. Uma pedra mais que preciosa, porque vital no imo da natureza. A pessoas deste jaez, a pedra nunca é de jogo, porque é o próprio jogo na profundidade da emoção. Pessoas assim não se chamam à pedra, chamam-se aos púlpitos do amor. Nunca atirarão a primeira pedra, porque sem pecado. Nunca colocarão uma pedra em nenhum assunto, porque a poesia é porta eternamente aberta. E a casa é de pedra e cal.

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