Correio do Minho

Braga, terça-feira

'Sábado de Aleluia', por Maria da Costa

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2011-07-23 às 06h00

Escritor

Acordei estremunhada ao som de uma gritaria. Ainda de olhos fechados fiquei à escuta e de repente lembro-me do dia. Levanto-me com rapidez e de seguida apronto-me para poder enfrentar os autores de tal barulho.

Do cimo das escadas e com sol a bater-me de frente olho para o portão aberto e deparo com um grupo de rapazes da minha aldeia, que eram meus conhecidos, podia até chamá-los pelos seus nomes. Sabia que alguns deles eram companheiros assíduos dos meus irmãos, principalmente nas secretas incursões ao rio, sem os meus pais se aperceberem.

Ouvia contar entre os mais pequenos que algumas vezes metiam as mãos nos buracos dos muros que ladeavam o rio para assim apanharem as rãs. Acontecia que, sem contarem, apanhavam pequenas cobras de água que lhes fugiam das mãos, pois eram muito escorregadias.
Ao longe ouviam-se as badaladas marteladas de um relógio. Contei-as. Eram nove horas da manhã. Nesse mesmo instante ouviu-se o sino da velha igreja da freguesia que anunciava a ressurreição de Jesus Cristo.

Todos os anos era hábito queimar o Judas e lembro-me do meu pai fazer um esqueleto em madeira, de tamanho real, o que proporcionava a alegria da pequenada, não só dos da casa como também do povo da aldeia. O meu pai e o meu primo mais velho afadigavam-se nos últimos retoques daquela figura, que segundo nos ensinavam na doutrina vendeu Jesus por trinta dinheiros.

Estava um lindo dia de sol e os rapazes naquele momento amontoavam-se junto ao portão da casa a ver qual deles teria a honra de transportar o Judas para junto do adro da igreja, onde seria queimado.

E quando o meu pai aparecia, ao cimo das escadas, acompanhado por alguém transportando o “Traidor”, a rapaziada manifestava-se aos gritos e empurrões tentando, um deles, ser o primeiro a tocar-lhe o que me divertia imenso. E com a minha curiosidade de garota ia também no “cortejo” acompanhada pelos meus irmãos, sentindo-me assim mais segura. Chegados então ao terreiro da igreja, onde junto do cruzeiro que ostenta, ainda hoje, a data de 1672, dando-se assim início à cerimónia da queima do Judas. Toda a gente da freguesia marcava presença neste espectáculo, incluindo o senhor abade que não o perdia por nada.

O “Judas” recheado de bombas de carnaval por debaixo das vestes, algumas delas mais fortes, principalmente na cabeça. Quando lhe chegavam o fogo, dava um efeito tão bonito que não seria tão cedo esquecido.
O estrondo do rebentamento era tão grande que nós crianças, encostávamo-nos aos nossos pais, bastante assustadas. O barulho ensurdecia-nos e eu tentava com os dedos metidos nos ouvidos atenuar aquele estrepitar tão intenso e assustador. A figura de Judas ia desaparecendo no meio de tantos estalos e clarões.

No fim o falatório não deixava margem para dúvidas de que o povo tinha gostado e em lugar “dele “ restava um amontoado de cinzas meio fumegantes que atestavam bem a certeza de mais um Judas de madeira e trapos desaparecido.

No regresso a casa toda a gente comentava a cena a que tinham assistido e o entusiasmo das pessoas deixavam-nos felizes. No final era feita a promessa de no ano seguinte se repetir o espectáculo. Mas como tudo tem um fim, ele chegou, com grande tristeza de todos. E como a esperança deve ser a última a morrer, pensa-se já no dia seguinte.

Na aldeia era costume na época da Páscoa, o povo esmerar-se na limpeza das suas casas enfeitando-as com flores, para no Domingo o Senhor Jesus, como eles diziam com devoção, os visitasse e abençoasse, fazendo esquecer por momentos muitas das angústias que persistiam nas suas vidas.

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