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Saber a tempo: a obsessão de H. G. Wells

Beco sem saída

Ideias

2016-01-02 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Comemoram-se em 2016 os 150 anos do nascimento de Herbert George Wells (21.09.1916) - e também, já agora, recordam-se os 70 anos da sua morte (13.08.1946) - o escritor inglês, considerado um dos pais fundadores (a par de Jules Verne e Hugo Gernsback) do género literário da ficção científica, autor das popularíssimas novelas A máquina do tempo, A ilha do doutor Moreau, O homem invisível e A guerra dos mundos.
David Lodge, autor de uma biografia ficcionada do seu compatriota, intitulada Um homem de partes, afirmou num artigo publicado no The Guardian (11.03.2011): “A primeira área em que Wells reivindicou conhecimento especializado foi o futuro”. E, de facto, ele foi, de modo assumido, sobretudo um visionário.
No ensaio “O que está a chegar? Um prognóstico de coisas no pós-guerra”, igualmente publicado há 100 anos, declarou estar “mais interessado no amanhã do que no passado e que este não passa de material para conjeturar o futuro”. Nessa obra, menos lida e comentada, escrita no contexto muito especial da 1ª Guerra Mundial, que não iria terminar no final desse ano, como chegou a acreditar, mas se prolongaria por mais dois, fez um esforço de antecipar “a tendência dos acontecimentos para a década seguinte”.
Wells considerava ter uma “disposição preditiva” (forecasting disposition), uma “mente profética”, tendo-se mesmo autodefinido como “um amador faticano” empenhado em descortinar que “impalpáveis forças da vontade e da imaginação e do hábito e dos interesses” moldariam o futuro.
Ele acreditava que muito do que ocorre no futuro se liga ao passado e ao presente como se resultasse inevitavelmente destes - convicção que fortaleceu pela sua ideia de que a ciência seguia o paradigma indutivista - mas, ao mesmo tempo, estava persuadido de que “prever o futuro é modificar o futuro”.
Quis sempre ver antes do tempo. Não, provavelmente, porque pretendesse precaver-se do porvir, mas por um desejo que o consumia, como a todos nós demais mortais, presumo, de saber como tudo irá terminar, semelhante, em género, àquele que nos move para conhecermos a desfecho de um romance. Soube combinar para isso, como poucos, as faculdades da imaginação, do raciocínio lógico e da observação atenta.
Foi em A máquina do tempo que levou mais longe o seu impulso de idear o fim de todas as coisas. Ficcionou aí uma geringonça tecnológica onde um viajante (sem nome) vai até ao ano de 802701, futuro extremo em que o humano desapareceu já há muito e que a própria vida é praticamente inexistente, à exceção de um rudimentar organismo aquático dificilmente identificável numa penumbra quase completa.
Mas fê-lo, igualmente, em exercícios de prognose ao longo de quase quatro décadas - particularmente intensos no decurso dos dois grandes conflitos bélicos mundiais de que foi testemunha e sobrevivente - sobre o futuro do seu país, da Europa e do mundo. Nesses contextos tão tormentosos e dolorosos, Wells quis saber a tempo se o declínio manifesto da civilização ocidental representava um fenómeno rapidamente superado e esquecido ou um processo destinado a provocar séculos de desordem e sempre mais e mais conflitos fúteis; quis saber a tempo se era de esperar, mais optimistamente, disporem as nações da Terra de reservas de imaginação suficientes para reconstruirem a sua coexistência em base mais sólidas e mais felizes; quis saber a tempo, no fundo, se o mundo em que vivemos, o do seu futuro, era melhor que o dele. Neste início de um novo ano talvez devamos tentar saber a tempo, também nós, como vai ele acabar.

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