Correio do Minho

Braga, terça-feira

Sal(ina), de Alfabeta

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2010-08-18 às 06h00

Escritor

Estamos em meados dos anos oitenta, numa das muitas belas praias do Sul de Moçambique.

Íris corria ao longo da praia bem juntinho ao mar, refrescando de salpicos seu corpo e deixando que a brisa fresca lhe acariciasse o rosto jovem.
Seu cabelo negro bem curtinho de corte bem moderno evidenciava a beleza de um rosto moreno como que esculpido tendo por cópia uma escultura grega.
Percorria o extenso areal numa caminhada em jeito de corrida, como gostava de fazer sempre que podia, pela manhã, mal o dia despontava.
Os raios de sol de cores intensas embarcavam algures num mar imenso e misterioso, como só o continente africano possui.
Seu corpo belo e jovem chamava sempre á atenção de quem passava. Apesar de não ligar nenhuma importância, incomodava-a a insistência dos olhares, por isso escolhia a manhã bem cedo para fazer seu curto mas relaxante passeio.
O mar era seu refúgio, seu local de meditação. Sempre que se sentia triste, paradoxalmente, ele transmitia-lhe a serenidade que procurava. Apesar do medo, desde criança que tinha em nadar, nada impedia a relação intensa que tinha com o mar, mesmo observando-o de longe. Seu olhar perdia-se na imensidão do oceano, na procura de respostas que não tinha.

Uiiiiiiiiiiiiii…Desculpa…peço desculpa…magoei-te ???
A criança com cerca de seis anos, cor de ébano, tentava levantar-se sorrindo e olhando fixamente Íris.
- Faz mal não…não tem ferida… vês?!!!
Limpando-lhe o rosto e ajudando-a a levantar-se…
- Estás sozinha linda? Onde estão teus pais, como te chamas??????
- Eu sô a Salina e tou sozinha.
- A esta hora na praia sozinha Salina?!!!!
- Olha podes chamar só Sal, é como a vó chama eu. De repente Íris sentiu sua mãozinha agarrar seu braço com força, balançando-se dizendo.
- Posso ir contigo? Tu como chamas?
- Meu nome é Íris e tu queres ir comigo sem me conhecer, sabes que nunca se deve ir com estranhos nem…
- Tu não és estranha, eu vejo-te muitas vezes correr na praia de manhã. Tou sempre ali naquela rocha onde apanho conchas pra brincar e levo pra casa. Hoje qu`ria falar contigo, tavas a correr dei-te um empurrão e caí…Ah! Ah! Ah!
- Ahhhhhhhhhhh então foste tu que vieste contra mim e não eu que distraída fui contra ti?!!!!
- Pois…enganei-te.
- Porque fizeste isso Sal?
- Qu`ria que me levasses contigo. O espanto de Íris atingiu o limite. Parou de andar de mão dada com aquele ser pequenino de quem nada sabia mas que começava a intriga-la profundamente.
- Vamo-nos sentar ali, na “tua rocha”?
- Ali nã…o Nhão pode ver a mim e eu não quero.
- Quem é o Nhão??!!!
- É o cão da vó que ela manda com eu pra fazer companhia e não deixar eu perder, nem roubar a menina, que sô eu…
- Não estou a perceber linda, tu vens para aqui sozinha com um cão?!
- Claro! O Nhão guarda eu, a vó diz.
Vindo não se sabe de onde aparece um enorme pastor alemão lambendo a pequena Sal, derrubando-a.
-Ôtra vez não…tas a ver Íris ele tá sempre atirar eu pró chão e eu sô pequenina.
Íris sorriu sentando-se junto de Sal, na areia branca e molhada, abraçando receosa a cabeçorra do Nhão, que surpreendido se afastou ligeiramente para de imediato investir sobre Íris que em desequilíbrio, caiu, sentindo as lambidelas do enorme cachorro, em seu rosto.
- Ele gosta de ti! Ele gosta de ti...e tu gosta mais de Nhão que de eu…
Iris largou de imediato a cabeçorra do cão e afagou a face triste da pequena.
- Vamos pequenita, leva-me á tua avó, tá?
-Atão não levas eu contigo?
- Ó fofinha não posso!
- Chamaste o quê????
- Fofinha…é…chama-se ás pessoas de quem gostamos e são lindas como tu.
-Atão eu sô fofinha e linda?!!!
- Claro que és e muito.
- Tu também és linda... M U I T O e eu quero ir contigo. Insistia a pequena.
Íris continuava sentada na areia molhada com o braço por cima do frágil corpinho daquele ser indefeso que a olhava com uma ternura imensa e uma persistência ainda maior em a acompanhar.
Levantou-se pegando na pequenita pelos braços elevando-a e rodopiando entre si.
O riso cristalino da pequena Sal ouvia-se pela praia quase deserta. Nhão corria, saltava, parecia também ele, feliz.
- Olha fofinha, eu quero conhecer tua avó, posso?

Puxando com força o braço de Íris e correndo ao longo da praia lá chegaram a um local onde parecia que todas as forças da natureza se tinham juntado para reunidas o pintarem das mais variadas tonalidades.
O cheiro a mar, a areia molhada, misturado com as intensas cores de África, estavam todas lá, numa simbiose quase perfeita…Castanhos, verdes, amarelos, azuis, laranjas…

De entre um emaranhado conjunto de enormes plantas, apareceu uma senhora alta, bem constituída, e de aparência jovem, com um chapéu de palha na cabeça e vestindo uma capulana que lhe cobria todo o corpo, até aos pés. Por detrás de sua enorme figura, descobria-se como por magia uma espécie de bangalôt.
- Onde se meteu esta minina…Nhão…Nhão…
- Olá! trazes uma amiga contigo filha?
- Vó é a Íris…
Íris aproximou-se da Senhora, cumprimentando-a com um beijo na face, ao que ela correspondeu de igual forma abraçando-a carinhosamente.
- Esta minina foge sempre que pode prá praia e às vezes sei lá prá onde. Mesmo com o Nhão perto, tenho medo, medo mesmo!
- Venha… venha para dentro tomar um refresco de manga, é bom!
Falava de forma tão natural como se conhecesse Íris á muito tempo. Entraram.
Estava tudo tão limpo, tão cuidado, aparentemente com coisas básicas, mas de aspecto tão acolhedor, tão inusitadamente confortável … Parecia uma casa de praia, para férias.
Na entrada a esteira baloiçando convidando ao descanso, à observação e ao recolhimento, naquele local tão aprazível e privilegiado pela mãe natureza.
- Conta lá minina…Íris, né? Essa minininha aí chateou muito você? É um perigo, sempre qui vê alguém qui lembra a mãe, mete conversa e não cala mais…
Íris permanecia calada observando tudo com curiosidade e interesse.
- Dona…não sei seu nome…
- Meu nome é Diná e sabe porque minha minininha é Sal?
E de imediato a história começou a ser contada.

- Minha filha conheceu o pai de Sal com treze ano e ele dezassete. Ele foi trabalhar na África do Sul prás mina. Era bom rapaz e q´ria estudá e casá com minha filha. Começou a namorá e Yola ficou de barriga cheia, com quinze ano. Ele foi logo pra África do Sul antes de minina nascé. Dizia prá dar um futuro bom pró filho que tava pra nascer. Coitadinho do Frank, morreu pouco depois num acidente, nas mina, bom moço!

- Yola ficou muito doente e teve a Sal sozinha com eu ajudando, num barco, no rio.
- O nome ficou Salina, mas prá nós é Sal. Por isso ela gosta tanto da praia, de tudo que tem a ver com mar e rio. Fico com medo de um dia ela se afogá, mar dentro…
Sal ouvia tudo muito quieta relaxada num enorme cadeirão de verga com pequenas almofadas de cores berrantes com Nhão enroscado a seus pés.
Íris escutava estupefacta a história que Dona Diná ia relatando de forma comovente…

- Eu também, minina, tive meus filho muito nova, uma minina e dois rapaz. Os dois rapaz foram trabalhá pra Portugal, são mais velho. Yola não. A caçula da família, foi embora, sem dizer nada… Deixou comigo a Sal com dois ano e se mandou pró mundo. É jovem, linda e eu…Uma lágrima correu em sua face. Eu…tem muita saudade. Meu Jacob é pescador. Ele, eu e Sal, vamos vivendo…na espera de um dia Yola voltá. Eu sei qui volta, eu sei…sinto, aqui e apontava para o coração.

Íris estava comovida. Um nó na garganta impedia-a de falar. Sentiu uma vontade enorme de abraçar a avó e a neta, juntas. Conseguiu por fim recompor-se e disse:
- Vivo com minha mãe e meu irmão Alexandre a uns quilómetros daqui. Sempre que posso, logo pela manhãzinha, venho até á praia, andar. Adoro o mar. Também fiquei sem pai muito nova, com apenas dez anos e meu irmão com catorze. Um acidente nas obras. Trabalhava bem longe daqui. No seu regresso a casa, um carro atropelou-o e fugiu. Minha mãe criou-nos sozinha, não quis mais ninguém. Seu relato foi interrompido por alguém que chamava lá de fora.

- Diná…Diná…Alguém chegava com dois enormes peixes.
- O Jaco manda isto pró jantá…

- Bom, tenho que ir, já estou atrasada na hora de chegar a casa. Minha mãe hoje não foi trabalhar está adoentada, é professora primária. Fica preocupada…
Sal levantou-se num ápice.
- Dona Diná, se a Senhora conversar com seu marido, eu não me importo de levar a Sal para passar um fim de semana comigo, na vila. Eu sei que não me conhece, mas o Sr. Jacob pode me acompanhar e fica a conhecer onde vivo para mais tarde levar a Sal.
- Nã…eu vou contigo, vó deixa…
- Não filha, vamos primeiro falá pró vô e depois sim, eu deixa.

E aquele encontro que tinha começado numa linda manhã, casualmente… casualmente, não, com um empurrãozinho da petiz, a relação de Íris com Sal foi ficando cada vez mais forte e mais consistente.

Na pequena vila já se dizia que Íris tinha adoptado aquela menina. Era uma adoração recíproca. Não passavam uma sem a outra e assim foi passando o tempo.
Sal já com nove aninhos, era aluna, uma excelente aluna da mãe de Íris, da professora Emilia, Mimi, como carinhosamente os miúdos a chamavam.

Um dia ao cair da tarde quando Sal ia com outros meninos a caminho de casa…

- SAL…S…AAAA …LLL…S…A…L

Era um grito embargado de emoção, que do outro lado do caminho de terra batida, ladeado de frondosas árvores, se fazia ouvir, com dor.
Sal estacou e seu olhar foi desviado para o outro lado do caminho…

- Mãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa….

Uma jovem negra, bem bonita, vestida de branco, de braços bem abertos esperava a pequena Sal.
Ninguém tinha dito que aquela jovem ali era a sua mãe, mas Sal, por qualquer força interior inexplicável sentiu o apelo e correu para aqueles braços estendidos á espera daquele abraço tanto tempo sufocado.

Do outro lado da rua no recinto da escola Íris e a mãe de lágrimas nos olhos e de mãos entrelaçadas:
- Tu conseguiste minha filha!
- Conseguimos! Nós e a fé de Dona Diná. Foi um esforço conjunto mami e a Senhora sabe isso, até o Alex ajudou.

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