Correio do Minho

Braga, terça-feira

Salvar o cinema S. Geraldo (II)

Caminho perigoso

Ideias Políticas

2016-03-22 às 06h00

Carlos Almeida

Reza a lenda que São Geraldo - padroeiro da cidade de Braga - era uma pessoa teimosa. Não foi por acaso que, segundo conta a história, São Geraldo, que estava muito doente, pediu que lhe trouxessem fruta, ignorando que o frio e a neve impediam as árvores de dar fruto. Depois de muita insistência, quando os seus criados se deslocaram ao exterior, verificaram que, contra todas as leis da natureza, as árvores estavam repletas de fruta.

Não sendo eu muito dado a milagres, dou no entanto grande valor à cultura popular, por reconhecer nela uma sabedoria própria, um carácter alegórico que, devidamente contextualizado, acaba por proporcionar reflexões bem interessantes. Ora, nesta história do “milagre da fruta” sobressai a crença de que mesmo nas condições mais adversas existem sempre possibilidades.
Na história, como na vida, o “milagre” vive na insistência e na confiança de que há sempre espaço para conversar, escutar e procurar soluções.

O que a história e a quase centenária sala do cinema São Geraldo têm em comum não é apenas o nome do santo. É também a vontade e determinação por parte de quem acredita numa solução que, contrariando as “leis da natureza” do capital, é possível salvar uma parte importante do património social da comunidade bracarense.
Não, não deitámos a toalha ao chão. O assunto não está arrumado, como alguns gostariam. O movimento de defensores da sala de cinema não pára de crescer e os argumentos em seu favor multiplicam-se.

No seguimento da última reunião da Câmara Municipal de Braga, na qual a CDU e o PS viram ser reprovada pela maioria PSD/CDS uma proposta que pretendia salvaguardar a sala de cinema, muito se ficou a saber. Descobrimos que, afinal, não existe ainda parecer definitivo da Direcção Regional de Cultura de Norte para o projecto da Diocese. Revelou-se também que, contrariando a inevitabilidade com que alguns encaram o assunto, o processo de licenciamento não está ainda concluído.
Dois factos de extrema importância que não podem ser ignorados pelas partes.

Mas dessa reunião podemos retirar ainda mais conclusões. Um dos pontos da proposta pedia a suspensão do licenciamento e de quaisquer operações urbanísticas em curso na área do cinema. Nesta matéria, o argumento forte da maioria PSD/CDS foi de que a Câmara não tem poderes legais para determinar o uso dos edifícios. É claro que a Câmara não pode inviabilizar um projecto apenas porque gostaria que a sua utilização futura fosse outra. É também claro que ninguém pediu isso. O que se pedia era que a Câmara, tal como fez no edifício do “Pé Alado” - também ele propriedade da Diocese, e que servirá para sede de uma Junta de Freguesia -, negociasse, estabelecendo parcerias, acordos ou o que mais lhe conviesse, podendo assim determinar o uso futuro da sala de cinema do São Geraldo como equipamento cultural. A questão é que a Câmara teve dualidade de critérios nos casos em apreço. E quanto ao do cinema São Geraldo demitiu-se do seu papel de articular um projecto privado com o interesse público.

Estou certo de que ainda há tempo para inverter o processo e que a Câmara, nomeadamente o vereador do urbanismo e património, está hoje mais sensível à questão, face a tantos apelos das mais diversas entidades e associações. Entre elas a ASPA, tantas vezes marginalizada do passado. E quem na altura lhe exigia respeito, tem hoje a oportunidade para conferi-lo, ouvindo as suas sábias palavras sobre o cinema S. Geraldo.

A propósito de passado, diga-se que é corrente ouvir-se falar, ainda hoje, dos crimes patrimoniais cometidos por quem governou Braga, destruindo irremediavelmente parte da sua identidade histórica. A esses actos estão associados nomes que ficaram na memória dos bracarenses pelos piores motivos. Espero que no futuro não tenhamos que ver determinados nomes no capítulo do cinema São Geraldo.

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