Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

São eleições, senhor!

Sem paralelo

São eleições, senhor!

Ideias

2019-01-25 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Os avisos chegam de todos os lados – o risco de abrandamento do crescimento económico , em termos globais, para 2019 é considerado como significativo.
O Fundo Monetário Internacional, ainda que na verdade seja justificadamente tida como uma organização conservadora , reviu em baixas previsões iniciais de crescimento . Ainda que ligeira, 0,1 ou 0,2 pontos percentuais menos do que se previa em Outubro de 2018 (já então, também tinha revisto em baixo), avança com a possibilidade de uma taxa de crescimento prevista de 3,5% para 2019 e de 3,6% para 2020. Os riscos advêm da crescente política protecionista ,ou seja, do aumento de tarifas entre os EUA e a China, mas também da contração na Alemanha, que ocorre pela primeira vez desde 2015, em parte devido a uma quebra significativa na produção automóvel e à descida da procura externa , e na procura doméstica italiana. Por outro lado, a economia da Turquia tem vindo também a contrair fortemente, e as economias da América Latina estão a ser marcadas por um crescimento moderado. As previsões da OCDE não diferem muito; a longo prazo, as suas previsões vão no sentido de um menor crescimento , uma convergência mais limitada e pressões fiscais crescentes.
Também a União Europeia, ainda por finais de 2018, vinha chamar a atenção para a probabilidade de um crescimento económico mais moderado. A previsão apontava para um padrão de evolução diferente dos dez anos anteriores, baixando dos 2,4% em 2017 para 1,9% em 2019 e 1,7% em 2020, na zona euro. E a incerteza que continua a rodear o Brexit, com tudo e todos a pontar para uma saída desordenada, ao mesmo tempo que esperam o milagre de uma solução capaz de minimizar os danos obtida à última da hora. Assim seja. Sendo certo que em qualquer dos casos, o impacto do Brexit na economia inglesa poderá vir a traduzir-se numa redução do PIB inglês per capita entre os 1,9% e os 5,5% ao longo de 10 anos , segundo um estudo do Centre for Economic Performance, da reputada escola London School of Economics. Isto assumindo que chegarão, sabe-se lá como, a um acordo, porque caso contrário a redução do PIB per capita pode chegar aos 8,7%. O impacto potencial desta redução poderá vir a ultrapassar claramente os ganhos eventuais em termos das finanças públicas decorrentes da saída da EU. Por outras palavras, um arrefecimento da economia inglesa para os próximos anos.
Quando o Reino Unido sair de facto da União Europeia, vão voltar as barreiras tarifárias e não tarifárias à livre circulação de pessoas, produtos, serviços e capitais, e isso vai certamente afetar todos, principalmente a Irlanda, a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo, com quem o Reino Unido mantem relações comerciais mais fortes, em termos relativos. Mas na verdade, hoje em dia , a maior parte das trocas internacionais fazem-se no contexto de redes empresariais, envolvendo cadeias de valor muito complexas que vão desde as matérias primas até aos produtos acabados, e que envolvem o design, a produção, a logística, a distribuição e o retalho, e que necessita de um fluxo de informação contínuo e rápido entre as preferências dos consumidores e os produtores. Ora exatamente na perspetiva do valor acrescentado, o comércio internacional entre o Reino Unido e os países membros da União Europeia é uma combinação de exportações diretas e indiretas, através de cadeias de valor que passam também por países terceiros. A Alemanha, neste contexto, pode vir a ser uma das economias a sofrer por causa da Brexit, dada a integração nas cadeias de valor de produtos como os automóveis, e a maquinaria e o equipamento, ainda que diversas estimativas apontem no sentido de um impacto negativo não muito significativo (Connell et al., 2017).
Portugal é uma pequena economia aberta e pouco competitiva. As trocas que mantemos com o exterior, as exportações e importações de bens e de serviços são muito importantes para nós, mas à escala mundial representam muito pouco. Mas mesmo o grau de abertura práticamente estagnou, se olharmos para meados da década de noventa. Lendo um estudo elaborado pela Ernst & Young – Augusto Mateus & Associados para a CIP, e apresentado publicamente no final do ano pas- sado, prevê-se um efeito negativo do Brexit que poderá oscilar entre os 15% e os 26% para os mais pessimistas nas exportações portuguesas para o Reino Unido. Isto poderá vir a traduzir-se numa quebra na ordem dos 0,5% a 1% no PIB nacional. Claro que nem todas as empresas serão afetadas, dependerá dos setores e do grau de integração nas cadeias de valor e no outsourcing internacional – o cenário mais difícil poderá vir a confrontar produtos informáticos e eletrónicos, a indústria automóvel, reboques e semi reboques e equipamentos elétricos. No que diz respeito aos produtos, as regiões do Alto Minho, Cávado, Ave e Tâmega e Sousa estão entre as que podem vir a ser mais afetadas.
Os problemas que rodeiam a economia mundial encontram a sua raiz fundamental na incerteza e na instabilidade política. Trata-se de riscos -a generalidade das instituições internacionais sublinha isto, que não estamos de facto a falar de uma nova recessão, ou pior. Mas que as coisas estão complicadas, é verdade – tanto quanto a economia gostar de ambientes onde o grau de incerteza é baixo, onde os riscos envolvidos são facilmente identificáveis e podem ser definidas estratégias para os ultrapassar. Em ano de eleições, dever-se-ia ter isto bem presente.?

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.