Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sargelas

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2016-07-03 às 06h00

Escritor

José Cruz

Bizarro! Algo de inacreditável se descerrava diante dos olhos de Celeste. Consultora de imagem, por imperativos orçamentais, e personal shopper por convicção profunda, Celeste tirara o fim-de-semana prolongado para revigorante passeio pela província, aventurando-se por vias secundárias que de ordinário ignoraria.
Partia sem destino, por norma. Depósito cheio, bidão para emergências, garantiam-lhe que não ficaria encravada em misterioso nenhures; um cesto de fruta, biscoitos de aveia, minúscula mala térmica repleta de iogurtes, asseguravam-lhe que os tormentos da fome em circunstância alguma a impediriam de se embeber das delícias da estrada, das paisagens que lhe serviam de cabeceira.
O farnel e os dois termos de café constituíam previdente salvaguarda, uma vez que não hesitava interromper marcha sempre que a ocasião se prestava, e nem a mais rançosa das tascas de beira de estrada lhe despertava o ronco das vísceras. Parava, pedia café ou emblemática mini, conforme apontasse o higienómetro, passava olhares pelos petiscos, deixava-se surpreender por fêveras ou panados, por uma chispalhada, e nunca as especialidades porcinas tanto no goto lhe caíam como nos comedouros imprevistos de vilarejos deixados para trás.
Mas de Sargelas tinha ela a certeza cristalina de jamais se esquecer.
Entrara no povoado vinda de leste, e logo engraçara com o largo central de conformação irregular, debruado por ameixoeiras de médio porte. A ocasião era favorável - os ramos vergavam pejadinhos de frutos de notável gabarito. Num ímpeto aguou-se-lhe a boca. Automaticamente teve a certeza de que ninguém lhe reprovaria a ousadia. Sentiu-se tentada a estacionar, mas a urgência maior por um WC aconselhava a que prosseguisse.
De pronto encontraria café ou pastelaria, pensou, interromperia a marcha à porta, aliviar-se-ia dos incómodos, e de seguida se daria à prova e à gulodice. Contornou a praça em marcha de caracol, regressou ao ponto de partida. Algo de absurdo e dissonante lhe zunia na consciência.
Ponderou fazer segunda passagem pelo perímetro urbano, mas bem certa estava de tudo ter visto com o requerido detalhe. E ali mesmo, entre o coreto - peça artística em ferro fundido dos idos de oitocentos - e uma capelita de belas proporções de fachada tardo-barroca, com o motor a ronronar em fundo, reviu as frontarias das nove dezenas de casas que faceavam o parque público, os dois chafarizes gémeos, nas extremas norte e sul do jardim, cada qual com sua graciosa evocação de Eros; reviu a piscina de porcelana orlada de buganvílias, que no recanto oeste se oferecia pelo meio de uma colunata dórica, o cineteatro, de traça e motivos decorativos art nouveau, no vértice setentrional da vila.
Do exercício memória restava-lhe a convicção inabalável de que em todos os prédios se abria actividade económica no rés-do-chão, que, à porta da maioria dos estabelecimentos, bem distinguira figura animada - aqui homem, ali mulher, risonhos, convidativos… Até havia quem tivesse acenado, mesmo chamado: ó menina, ó menina, venha cá! Só que, parva não tivesse ela ficado, metade das artísticas tabuletas publicitavam serviços de barbearia ou cabeleireiro, propondo, as restantes, fiáveis serviços financeiros, ao cuidado de provadas agências de investimentos e gestão de fortunas.
Abalada pelo absurdo, estacionou em contramão, e nem se apercebeu. Saiu para o jardim, contornou o coreto, rodando amiúde sobre si própria, coçando a cabeça, repetindo ‘cabeleiros’, ‘gestores’…
- Mas esta gente é maluca, ou quê?
Cirandou erraticamente, desligada do meixedo que quase lhe roçava o nariz. Por duas vezes falhou o reconhecimento de sanitários públicos, com óbvia sinalética de ambos os lados de ampla escadaria de mármore. Apercebeu-se que a observavam, que entrara nas discussões de grupos de vizinhos. Receou que a tomassem por avariada, a ela, tanto ou mais do que ela imaginava que estariam as gentes dali. Dirigiu-se a um magote, cujo efectivo logo triplicou.
- Bom dia, não têm por cá uma cafetaria?
- Cafetaria? Não, menina, que isso é negócio que não dá.
- Não dá? E para trinta cabeleireiros, ou mais, e para outra trintena de gestores de fortunas, será que dá?
A pergunta foi acolhida com indignação. Que todos os viageiros recebiam, atestaram, mas que não se prestavam a que os espiolhassem, e que tão afrontosamente pusessem em causa o modus vivendi da belíssima Sargelas…
Celeste teve artes de apaziguar o sururu. Que era uma vila de superior harmonia, do mais elegante e cuidado que alguma vez vira, referiu, opiniões que exaltaram sorrisos e apaziguaram temores.
Quanto ao resto, convencidos de não ser Celeste mexeriqueira de jornal de indecências, nem impiedosa agente do fisco, lá confessaram que, se bem que não reportassem ao primeiro tombado dos céus o andamento dos negócios da vila…
Celeste ainda hoje não sabe como conseguiu manter um ar de candura diante da resenha que lhe era feita. Que cuidavam de cabelos e patrimónios, sim senhor, que em cada triénio cambiavam metier, depositando pentes, enfronhando-se em folhas de cálculo, uns, e outros o inverso, que longe iam os tempos de basculhices sob o tinido de tesoiras…
Deixou-se convencer, Celeste, por lavagem simples. Não que previsse fortuna para breve, mas sempre ficava avisada.

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