Correio do Minho

Braga,

Saudade

Antecedentes… (parte II)

Conta o Leitor

2016-08-06 às 06h00

Escritor

Maria Júlia Magalhães

Estávamos no início do mês de Setembro mas o calor ainda se fazia sentir com intensidade. Deitara-me depois do almoço para a sesta habitual no Quarto Pequeno cuja janela se abria para a mata de pinheiros, eucaliptos e carvalhos. Gostava especialmente desse aposento da casa, muito aconchegado. O meu sono era embalado pelo cacarejar das galinhas que ocupavam um amplo galinheiro ao ar livre, mesmo por debaixo da minha janela, e pelo arrulhar das rolas que faziam os seus ninhos nas traves de madeira que suportavam a grande varanda envidraçada em redor da qual se dispunham os quartos e os diversos compartimentos da Velha Casa. Contrariamente ao habitual, eu não conseguira adormecer. Resolvi levantar-me. Agarrei no livro que repousava sobre a mesinha de cabeceira, saí do quarto e atravessei a casa, àquela hora silenciosa, dirigindo-me à Sala Velha - a sala onde podíamos fazer tudo sem alterarmos a ordem austera das outras divisões da casa.
Na Sala Velha havia uma janela com dois bancos laterais em granito, matéria da qual era construída a grande e antiga casa, não estivéssemos nós no Minho verdejante onde essa pedra abunda. Eu adorava sentar-me num desses banquinhos, estendendo as pernas em repouso, apoiando os pés naquele que estava do lado oposto. Assim, de nuca encostada à pedra fria, olhei através da janela, contemplando a paisagem aparentemente emoldurada pelas trepadeiras, heras verdes e abundantes que revestiam as paredes exteriores da Grande Casa. Apenas as aberturas das janelas sobressaíam naquele intrincado matagal de folhas e caules entrelaçados que trepavam pelas paredes em direcção ao telhado. Contemplei o território que tão bem conhecia e onde, desde que começara a andar, passava o mês de Setembro todos os anos. Estava no seio das terras férteis do Norte, na parcela delimitada de terreno onde se erguia o casarão dos meus avós paternos: a Quinta dos Carvalhos. Conhecia todas as árvores de fruto, as videiras, os milheirais e até o meloal onde os melões cresciam e tinham o sabor picante tão apreciado naquela zona. Desde muito jovem passeava diariamente, com o meu avô, por entre a vegetação que exalava um aroma extremamente agradável e a Natureza nos abraçava com ternura, purificando-nos os pulmões e alimentando-nos o coração. O meu avô apoiava-se numa bengala, cuja extremidade superior terminava numa forquilha metálica que ele utilizava para arrancar os frutos mais maduros que depois me oferecia, pois sabia quais eram aqueles que eu mais apreciava. Chegados ao meloal pedia-me para escolher um melão no qual gravava o meu nome com uma pequena navalha, dizendo:” Vamos ver, na altura certa, se fizeste uma boa escolha”.
O meu avô era uma grande alma sensível à miséria e à pobreza. Viviam-se tempos difíceis e pessoas humildes e necessitadas batiam constantemente ao portão da quinta porque sabiam que nunca iam de mãos a abanar. Havia sempre algo para comerem ou levarem para as famílias. Todas as segundas-feiras, dia de feira na aldeia, formava-se uma fila de pedintes à nossa porta e eu, com um saquito de moedas, ficava ali como uma sentinela, distribuindo uma por cada necessitado, o que me fazia sentir uma representante da generosidade do meu avô. Lembro-me dos pezitos descalços das crianças e da voz chorosa das mães que pediam ajuda às minhas tias para a resolução de problemas graves que as afetavam. Sabiam que elas encontrariam sempre uma solução.
Todas estas recordações estavam gravadas na minha memória e na minha alma. Porém, nesse dia, os meus olhos não viam da mesma forma as latadas, os campos de milho, as árvores de fruto, o declive empedrado que dava inicio ao caminho que conduzia à entrada principal da quinta. Era como um triste olhar de despedida. A paz que noutras, muitas, ocasiões sentira ao contemplar a frescura daquela paisagem minhota, tinha-se transformado numa sensação de amargura e de saudade anunciada. Ia completar 15 anos dentro de poucos dias e sentia que esse Verão representava o fim duma etapa da minha vida que se encerrara com a morte do meu avô António.
O livro que tencionava ler ficara abandonado nos meus joelhos, enquanto os meus pensamentos fugiam em busca de recordações que seriam, para mim, inolvidáveis. Episódios e acontecimentos aos quais nunca tinha dado grande importância, assumiam naquele momento uma força e uma intensidade emocional impossíveis de descrever. Nunca mais aquele espaço, aquela casa, aqueles campos e pinheirais, os animais que eu adorava e os odores frescos que me chegavam às narinas teriam o mesmo valor. Faltava a ALMA de tudo aquilo: a figura compacta, a voz potente, a personalidade forte do meu avô, presença humana marcante da minha meninice e pré-adolescência, que incutira em mim o amor pela Natureza e tudo o que dela provinha. Sem dar por isso, duas lágrimas correram-me pela face e permaneci imóvel, no silêncio um tanto assustador daquela enorme casa órfã, a recordar calidamente tudo o que ali vivera até àquele instante. Chegara o momento da despedida física inevitável. Contudo, nada me conseguirá privar dos momentos lindos que passei com aquele gigante inesquecível e que hoje, com 70 anos, ainda me aquecem o espírito e o coração.

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