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Saúde ligada à máquina

Migrações e Estado-Providência

Ideias

2015-01-26 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Todos nós sentimos alguma revolta face àquilo que se passa nas Urgências Hospitalares. Num país que se quer desenvolvido, não se morre à porta de um hospital, porque não se foi atendido a tempo por um médico; também não se esperam horas intermináveis por uma consulta, quando estamos doente. Em Portugal, tudo isto é possível... e muito revoltante.

Não acredito que o responsável pela pasta da Saúde não sinta um grande incómodo perante o caos que se vive por estes dias nos hospitais portugueses. Paulo Macedo é um ministro competente que tem feito um bom trabalho à frente de um Ministério gigante e atacado em permanência por inúmeros lobbies. Também será improvável que médicos e enfermeiros não se sintam incomodados por este ambiente descontrolado que pesa sobre o seu trabalho diário.

Ora, se tal se passa, por que não se resolve isso? A resposta não será difícil de encontrar. Estamos perante um problema sistémico, que se arrasta há muito tempo e que se torna mais grave quando há um surto, como este da gripe sazonal. Por isso, não é resolúvel com medidas pontuais.
Analisemos, por exemplo, duas medidas que foram propostas nos últimos tempos: a transferência de algumas competências para os enfermeiros e a alteração do sistema de triagem. Como escrevi anteontem no JN, nada disto é exequível.

Ao permitir que os enfermeiros possam pedir exames complementares de diagnóstico na triagem das urgências, o Ministério da Saúde resolve um problema e cria dois: diminui os tempos de espera, mas cria um clima de incompatibilidades entre médicos e enfermeiros que dificilmente concordarão com o diagnóstico feito e, ao mesmo tempo, provoca uma grande confusão na gestão dos exames solicitados.

Será que o autor desta medida sabe quanto tempo demora, numa qualquer urgência hospital, fazer um simples exame ao sangue e será que se lembrou que para certos exames o paciente é obrigado a deslocar-se a outras alas do edifício que o acolhe, fazendo frequentemente isso com acentuada dor física? É que o gargalo não está apenas na triagem, existe também à porta dos meios de diagnóstico, pelo que mudar a fila de lugar nada resolve.

Outra das putativas medidas avançadas foi a de repetir a triagem quando a espera for longa. Isto significa que há consciência de que o tempo é uma variável crítica para o agravamento do estado clínico do doente. Poder-se-ia aqui apontar os custos que essa evolução da doença implica para o Sistema Nacional de Saúde, mas tal exigiria pensar o problema numa perspetiva sistémica, algo que inexiste em Portugal.

Acresce que fazer uma segunda triagem implica ver novamente um doente que já foi visto anteriormente, ou seja, repetir o trabalho feito. Tudo isto seria anedótico, se não se tratasse de vidas de pessoas, muitas delas sem qualquer poder para se indignarem ou procurarem alternativas junto do sector privado.

Também por estes dias, o líder do PS veio propor a isenção de taxas moderadoras nos Centro de Saúde para os casos mais graves a fim de tirar alguma pressão dos Hospitais. O ministro rejeitou a proposta, dizendo que o perfil dos utentes não era coincidente. Até certo ponto, tem razão. No entanto, não foi com base nesta premissa que o Ministério da Saúde alargou o horário de funcionamento dos Centros de Saúde. Todavia, em Portugal poder e oposição devem estar em lados opostos da barricada, sendo o consenso muito difícil. Nada de novo aqui, mas isso não deve ser motivo de orgulho. Pelo contrário.

Não se espera para os próximos dias uma melhoria disto. O tempo frio vai continuar e o surto de gripe ainda não abrandou. Como nunca houve uma reforma de fundo (neste governo e nos anteriores), o problema subsiste. Este ano e nos próximos. Poderia não ser grave, se não estivéssemos a falar da vida de cada um.

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