Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Saudosos Quadros, de João Castelo Branco

O Estado da União

Conta o Leitor

2010-08-11 às 06h00

Escritor

Desses tempos guardo memórias ténues e longínquas de um homem calvo, de fato clássico de riscado, colete e gravata com motivos modestos e discretos. Quando o avistávamos na rua, levava sombreiro à Fernando Pessoa e por vezes gabardine castanha e chapéu- de- chuva de cabo de madeira.
Mão leve e régua pesada que aquecia as orelhas ou as palmas da mão. Outras vezes, cana-da-índia em riste apontando o quadro ou o mapa de Portugal Continental, Insular e Ultramarino.
Sentado na sua secretária, com ar austero, de nariz abatatado e avermelhado, deixava descair os óculos de massa para a ponta do nariz e inclinava ligeiramente a cabeça, para a esquerda ou para a direita, como quem espreitava. Depois, pronunciava à laia de sentença, o alvo da sua decisão e escolha.
Fazia-se um silêncio reverente na sala quando chegava a hora de ir ao quadro.
Quase sempre, aqueles momentos da aula eram dirigidos às filas do “Purgatório” e do “Inferno” pois as outras “almas”, as do “Céu,” gozavam estatuto quase imune, só sendo chamadas para dar os bons exemplos quando o mestre assim bem o entendia.
- Não estudam, mas as mãos hão-de vos ferver! (O suceder dos anos jamais apagaria esta frase da minha memória)
- Tu, vai ao quadro. - E, o coração a bater, a bater…
- Que estavas a fazer Eduardo?
- Estava a apanhar papeis sô ssor…

O Eduardo que era meu primo, era pródigo não só em arranjar desculpas esfarrapadas para se esgueirar ao quadro, mas também a contar histórias.
Eram quase sempre histórias estapafúrdias de perseguições a ratazanas de dimensões descomunais que no seu contar, acabavam quase sempre furadas com a vareta de um chapéu ou com um pau . Outras vezes, eram cães vadios que lambiam panelas em cozinhas de gente rica quando as cozinheiras estavam distraídas; almas de outro mundo que apareciam nas visitas à aldeia do pai; histórias de mortos que se levantavam da carreta no dia do funeral… enfim, narrativas fantásticas e pueris .
Noutras situações, os momentos de conto eram abrilhantados pelo
Neto, que era uma espécie de mímico. Fazia mais gestos do que prosava sendo os seus relatos ornamentados de trejeitos e de sons que arrancavam sonantes gargalhadas na plateia.

Apesar do seu génio hilariante, nunca lhe perdoei trazer para a escola as canas-da-índia verdes e resistentes e as réguas em madeira maciça, ostentando uma felicidade canina.
Recordo-me de pouco tempo depois de ter deixado a escola primária, o professor ter-me chamado à sua presença nas imediações da escola, ter-me segurado pelo braço e ter-me inquirido pelas minhas notas.
- Então Peça, conta-me lá, quantas negativa tiveste?...
- Quase que posso jurar que lhe descobri um brilhozinho nos olhos, mas esse não era castigador nem repreensivo.
Havia naquela expressão alguma preocupação, um misto de quase ternura e nostalgia que jamais lhe tinha visto e que nunca mais esquecerei.
E o tempo foi-nos moldando, fez-nos crianças mais velhas. Passo a passo, fomos descobrindo o que nos rodeava, um pequeno universo que se alargava.
Com o Luís marujo descobrimos o rio e todo o mistério que ele encerrava com os seus fundões e correntes. Aprendemos a apanhar peixes à mão esmiuçando o fundo das tocas e a observar os trajectos sinuosos das cobras de água. Os estranhos alfaiates que se mantinham incompreensivelmente à tona, os ratos de água, as rãs que coaxavam em charcos de água parada no areal numa barulheira infernal. Inalámos os odores fluviais do fim de tarde e observámos a azáfama das gentes que regressavam com um carrego de roupa lavada.
Lá aprendemos também a conviver com os demais, da nossa condição e de outras menos afortunadas porventura.
Aventurámo-nos pela mata fluvial e ali conhecemos a Amada e os seus inúmeros filhos a quem o Luís protegia. Do marido, apenas me recordo de ouvir falar vagamente como um homem perdido e alcoólico.
A Amada era uma jovem mulher sem-abrigo, com uns grandes e bonitos olhos castanhos, de tez morena e cabelos negros desalinhados que deambulava pela mata com os seus filhotes semi-nus e de ranho no nariz.
Um dia, dois rapazolas já espigados, mais velhos de que o nosso timoneiro destas andanças cometeram a veleidade de afrontar a dignidade da rapariga.
Num ápice foram presenteados com umas cabeçadas certeiras que os deixaram tão assarapantados quanto pesarosos.
Cambaleando e amparando-se mutuamente, foram-se afastando, vociferando impropérios e lançando desejos de vingança:
- Isto não vai ficar assim….vais ver quando passares lá na rua…
Escusado será referir que a partir dessa data, o nosso aventuroso companheiro passou a gozar de um estatuto ainda mais respeitável. Não apenas pela façanha cometida, mas também devido aos estrambólicos mergulhos que gostava de dar, trajando em cuecas e a horas tardias, do patamar mais alto da escadaria limítrofe ao rio, os quais fazia acompanhar de sonantes gritos:
- Viva o Benfica!

(...)

Um destes dias, numa das minhas periódicas viagens à cidade natal, a fim de ir buscar um familiar próximo, deparei-me com o meu carro a ser bloqueado pela polícia municipal, justamente na rua e ao pé da casa onde nasci. A razão para tal, prendia-se não com o estacionamento proibido mas sim com os escassos euros que tinha introduzido na máquina ,é que já não cobriam o tempo permitido.

De repente, sou assaltado por uma exacerbada sensação de indignação e desato a correr na direcção dos dois agentes que rotineiramente procediam à identificação da viatura e à sua imobilização, preparando o meu discurso:
-Como é possível estarem a multar-me aqui ao pé desta velha casa de janelas de guilhotina, desta velha porta carcomida pelo tempo e pelas intempéries, destas velhas e gastas pedras que formam o chão?
- Que estranha autoridade é esta que não me reconhece a mim como parte integrante deste cenário ?
- Não sabem que a rua é MINHA?!
Porém na hora fui acometido por um qualquer mecanismo censório e as palavras traíram-me:
- Queiram desculpar-me mas excedi o tempo que previa para as compras que efectuei…de forma que…
_ Vá…pronto…ponha lá mais umas moedinhas, vá lá! - disse a agente complacente.

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