Correio do Minho

Braga, segunda-feira

SC Braga vs Sevilha

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2014-07-16 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues


Sob o pensamento “dos fracos não reza a história”, uma vitória conseguida num campo de batalha por muito adverso e difícil de ultrapassar (ou não o serão todos?) mas este tinha a particularidade de ser uma autêntica muralha para qualquer equipa que visita aquelas terras de Andaluzia. Moral em alta de um Humilde, Humilhados os Grandes”, como li há anos numa crónica onde David virou Golias como neste caso.

Aquela tarde noite fez-nos esquecer todas as tristezas, as taxas de desemprego, as crises e os incêndios que fustigaram as florestas (ai Gerês, meu querido Gerês) os nossos governantes e o que (não) fazem para isto melhorar de cara e de saúde pois anda tudo moribundo.

Valeu-nos por esses dias, mais uma vez, o futebol, na imagem dos guerreiros do Minho, o SCBraga, que esteve a velar pela felicidade de quem AMA daquela forma que só nós braguistas sentimos e conseguimos atingir qual orgasmo futebolístico qual clímax de felicidade o que nos torna, afinal tão diferentes dos restantes e isto sem qualquer tipo de hipocrisia ou vedetismo tão pouco bairrismo. Apenas se sente assim quem nasce braguista e mais nada!

As lágrimas teimaram em cair com o golo de Matheus.
De realçar que os Andaluzes nunca foram equipa superior à equipa comandada por Domingos Paciência.

O primeiro golo surgiu aos 31 minutos, por intermédio de Matheus, após boa jogada numa arrancada de Paulo César culminando com um belo remate que Palop apenas defendeu para a sua frente onde o brasileiro teve “apenas” de empurrar a bola para as redes do Sevilla. O Arsenal Bracarense continuou a controlar a partida e já na segunda parte, aos 58 minutos, Lima começava a abrir o livro numa noite tórrida tão típica daquela zona espanhola, ao apontar um hat trick.

Logo a seguir Luís Fabiano fez o 2-1 e aos 84 minutos Navas empatou. No mesmo instante em que os sevilhanos começavam a acreditar no apuramento - a equipa precisava de marcar ainda dois golos - Lima acabou com a discussão: aos 85 minutos o brasileiro aproveitou uma má saída do guarda-redes espanhol para fazer o 2-3 e quatro minutos depois marcou o seu terceiro golo, o quarto da equipa bracarense.

Mantendo o ritmo louco e apoteótico da partida, Kanouté ainda fez o 3-4 em período de compensações, mas a noite era portuguesa. O Sp. Braga estava, justamente, apurado e estava de parabéns: a equipa, jogadores e técnicos, adeptos que tiveram o privilégio de terem assistido no palco do Pizjuan á partida ao vivo, todos aqueles - eu incluído, é óbvio - que por todo o mundo via rádio, internet ou tv, depois das batidas cardíacas em alto ritmo, do roer das unhas e de olhar constantemente para os minutos, também partilharam a alegria do feito acabado de realizar ao testemunharem uma das mais belas páginas da história do clube que certamente vai merecer destaque por muitos e muitos anos. Para trás já ficaram Celtic e Sevilha.

Vamos então continuar a sonhar e através do nosso futebol espectáculo que os nossos jogadores emprestam em cada partida deliciando e aquecendo os corações dos seus adeptos e mostrar toda essa magia a esta europa futebolistica que já conhece o mais recente senhor ilustre da “Champions”. Em Portugal tal façanha só foi conseguida pelo triunvirato do costume, o Boavista e agora o nosso Braguinha.Não é para todos, não senhor!

O sonho tornou-se realidade, naquela terça-feira, para a equipa de Domingos Paciência: o Sporting Clube de Braga garantia a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões ao bater o Sevilha por 4-3, no jogo a contar para a segunda-mão dos “play-off” da competição milionária.

Depois, com o resultado feito e terminado o jogo, caíram as lágrimas por uma face desejosa de viver um momento idêntico há 35 anos (o próximo será o ceptro nacional ou uma das duas ou mesmo as duas, taças, a da Liga e a de Portugal)) fizeram ir buscar ao âmago do meu ser, lá bem, bem fundo o grito do guerreiro e chorei novamente e gritei, saltei esbracejei beijei a face do Lima e do Matheus na TV emprestada para a festa.

Apesar de estar de férias em Ofir os vizinhos deviam “ter-se passado dos carretos” com os nossos gritos e vozes efusivas pois toda a família era a imagem da felicidade.

Saí para comprar cigarros para acalmar os nervos e o palpitar deste coração que sofre de amores pelo ENORME, e que essa noite muito saltou mas cheio de orgulho conseguiu aguentar mais uma vez as batidas rápidas que quase provocavam sufoco, a espaços e assim, novamente escondidos os receios e mostradas as virtudes para outra luta tive a oportunidade de mais uma vez mesmo longe de Braga ouvir os cânticos tão usuais nos estádios onde o SCBRAGA joga. Procurei pelas vozes que rompiam a noite e numa cumplicidade houve abraços entre hálitos etílicos abraços apertados e cheios de emoção como só nós braguistas conseguimos sentir. E já em casa ouvia-se nas pequenas e apertadas ruelas de vez em quando as gargantas bracarenses a darem azo á sua alegria.

FEZ-SE HISTÓRIA com uma das mais bonitas páginas dos 89 anos do nosso clube a ser escrita naquele dia 24 de Agosto do ano da graça de 2010. Apenas mais um para brevemente completarmos com o almejado título nacional. Mesmo que já não possa celebrar entre os vivos prometo que farei a maior das algazarras para martírio de S. Pedro e companhia.
Só faltaram as rosas vermelhas que foram graciosamente substituídas pelo vermelho das camisolas e cachecóis dos nossos amigos braguistas. O SCB no país que é o actual campeão do mundo e da Europa é, hoje, um clube prestigiado com direito a vénia e palavras bonitas escritas por escribas que percebem da coisa e fazem 'mea culpa' mas foram melhores. Novamente a história de David e Golias ou dos milhões e dos tostões.

Os Sevilhanos renderam-se ao nosso poderio e sinal disso foi ao intervalo pedirem aos nossos homens as camisolas do jogo. Numa segunda parte imprópria para cardíacos assistiu-se ao 2-0 de Lima e o rebolar no chão alcatifado e entre dentes segredar “já está…” mesmo quando, no minuto seguinte sofremos um golo que Felipe nunca sonhou sofrer nem nos piores pesadelos baixou a fasquia do sucesso que acreditava estava quase.

E veio o empate mas as contas com o golo do Axa fizeram-me ter calma e o sonho correu célere como Lima a correr sem pedir licença aos adversários e sem apelo nem agravo desfeitear mais uma vez o desafortunado Palop. Mas não satisfeito quase numa toada de parada e resposta num jogo digno de uma meia-final da Champions (ou Final?) Lima fez mais uma caipirinha adocicada com o hat trick, inédito nestas andanças, virgem nos grandes palcos Lima e companhia foram enormes receberam palmas alheias porque os espanhóis têm bom perder e como os ingleses são autênticos “gentlemens” o que só enobrece ainda mais este feito histórico. Depois o 3º golo dos andaluzes foi numa altura em que os jogadores arsenalistas já só pensavam nos festejos, como seriam recebidos no Aeroporto e na própria cidade.

Pois que seja feita a vontade do Homem e que continuemos a alimentar este sonho, hoje e sempre, qual Pedra Filosofal que era o principal objectivo dos alquimistas. Onde, segundo a lenda, aquela, era um objecto que podia aproximar o homem de Deus. Com ela o alquimista podia ainda, transformar qualquer metal vulgar em ouro, como também obter o Elixir da Longa Vida que permitia prolongar a vida indefinidamente. Neste caso vamos em busca da nossa Pedra Filosofal que seja por nós vista como um objecto capaz de prolongar esse nosso sonho até Maio. Como era bom e porque ainda não custa nada vamos continuar a sonhar e a viver esse sonho ou como António Gedeão na sua pedra filosofal escreve...Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Sonhemos, então!

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