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Se estivesses...

O Estado desta Nação

Se estivesses...

Ideias

2024-06-09 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Título truncado, mas pronto o ponho a pleno: se estivesses em Moscovo...
Esboço de frase de von der Leyen ao encontro de jovem, que terá vociferado saída desagradável para a senhora.
Pouco retive do episódio, embora espere ter apanhado o essencial: manifestação pró-palestiniana, subsidiariamente contra Israel e contra os poderes ocidentais; juventude exaltada, sedenta de confronto e protagonismo; Montenegro e Úrsula em campanha por uma Europa muito torta, levantada sobre miragens e mentiras.
Num aspecto a papisa Úrsula tem razão: em Moscovo, os manifestantes seriam acariciados com vigor exemplar. A questão, porém, é se tal nos basta por consolo. Isto é, que adianta que espolinhemos como ovelhinhas no redil, se os lobos se passeiam à solta, do lado de lá de ficções que nos emparedam?
Tomara eu ter acontecido num tempo em que fiel espelho me respondesse negativamente a pergunta encantatória: espelho, espelho meu, há continente mais puro, mais justo, mais progressista do que o meu?
Ocorre-me que talvez me trocasse as voltas, esse espelho confidente, porque de facto sejam as américas piores que a europa, idem para as áfricas e as ásias, salvando-se as austrálias porventura ao desacerto.
Repito-me, porque se repetem sem exaustão aqueles que passo em revista nestas linhas. A construção europeia não é um projecto político-social, porque tudo ponderado se nos apresenta como uma religião. Neste espaço de meio bilião de almas, em consequência, de nós se exige que sejamos crentes e fiéis, e que expurguemos do nosso íntimo, do nosso seio, a dúvida, a divergência, a dissensão. E ai de nós que caiamos na asneira de ter em lábios uma coisinha que Vladimir, O Terrível, haja dito, porque logo entramos no rol dos satânicos, dos agentes a soldo, dos imbecis, no mínimo.
Em matéria de querelas, salvo em proveito próprio, e de fundilhos a arder, ninguém nega que concorram e se confrontem duas razões – uma, a que nos agrada e serve, e outra que denegrimos, torcendo ao absurdo o nosso argumento e o contrário, se algum somos obrigados a reconhecer ao nosso inimigo.
Seja eu crédulo e contra esperanças minhas não encontre quem se disponha ao exercício, mas aqui fica o desafio à reflexão: de 2022 para cá, até de 2014 para cá, assistiu o meu bondoso leitor a algum debate plural, a um esboço de discussão em que o ponto de partida ocidental fosse questionado?
E retorno ao paralelismo religioso, tomando a Religião nos desenhos obscurantistas de antanho: não há uma verdade, senão a nossa, não há um Deus, senão o que adoramos, não há uma salvação, senão a que dogmaticamente preconizamos.
E assim chegamos a autos de fé, a tratos de polé e à fogueira, à expulsão de um povo e ao confisco dos seus bens. E, pouco eu saiba de História, no que a Portugal respeita, ao nosso declínio correspondeu a ascensão dos Países Baixos.
Não foi o Iluminismo, com o primado da Razão, uma resposta científico-filosófica, social mesmo, ao caduco quadro de referência teológico? Não enxergamos nós que cinco séculos depois vamos caindo no mesmo?
Queiramos ver que com unções tratamos judeus do piorio e que com absolvições similares nos atiramos uns aos outros, católicos contra protestantes durante largas décadas, sem que conste que algum deus tenha dado aval na primeira pessoa.
São de homens, as guerras em nome de Deus, e por seguro tenho que hoje se escudem com a defesa da democracia, aqueles que para atrás invocavam deus para caucionar cupidez própria.
Eu seja agnóstico. Eu seja iconoclasta. Eu não seja, porém, europeu-não-praticante. Sem Deus santo, sem Polis limpa, que é do Homem?

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