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Se isto é a Europa?

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Se isto é a Europa?

Ideias

2020-03-30 às 06h00

Vítor Paulo Pereira Vítor Paulo Pereira

Na última reunião dos líderes europeus, Itália, Portugal e Espanha propuseram a emissão de divida conjunta como a melhor, a possível e mais eficaz estratégia para combater à crise económica que vivemos e que se tornará num verdadeiro inferno se ninguém fizer nada. Mas não se chegou a um acordo, ao ponto do Ministro das Finanças dos Países Baixos propor à Comissão que se investigue a incapacidade de Espanha. Se palavras de Wopke Hoekstra tiveram a leveza de uma brisa, a resposta de António Costa teve a força de uma tempestade.
As finanças até nos podem separar, mas as angústias e os sonhos deveriam ser motivo suficientes para nos unir. A Europa está a viver um dos piores momentos da sua História e alguns dos países da UE, nem nos momentos mais dramáticos, conseguem sentir a dor dos seus parceiros, dos seus semelhantes. Batemos no fundo da insensibilidade. A UE perdeu a capacidade de se comover.
Neste momento, a UE vive uma espécie de insensibilidade que, a meu ver, é o existir intermédio do egoísmo e da decadência, para não dizer da morte. Quando havia divergências durante a crise de 2008, e ao longo dos anos seguintes, todos acreditamos que as divergências eram financeiras. Hoje não estamos na mesma situação. Hoje vemos pessoas a morrer todos os dias, países impotentes e desesperados a pedirem ajuda. Vivemos num tempo extremo. Aparentemente as divergências parecem financeiras, mas no fundo as divergências são de humanidade, de dignidade. E isso é que é intolerável, como o nosso Primeiro Ministro fez muito bem em sublinhar.
No fundo o que temos é uma UE de contabilistas, uma Europa de economistas. Para o responsável pela pasta das Finanças dos Países Baixos, que esteve na Shell e na consultora McKinsey, as pessoas são, como diria Eduardo Galeano, números, incómodos e devedoras. As pessoas são estranhas: fumam, bebem cerveja, gastam muito dinheiro em telecomunicações e às vezes até fazem amor. Que excêntricas! Que saudades tenho da Europa dos fundadores. Uma Europa com políticos generosos, imperfeitos, frágeis, mas capazes de arriscar porque acreditavam no futuro de uma Europa unida e solidária.
Longe estamos dos tempos da construção. É triste, mas parece-me que estamos na fase da demolição europeia, onde o mercado e os seus interesses afastam as pessoas e colocam no poder tecnocratas insensíveis que não conhecem a história da Europa nem tem vontade de trabalharem em prol de um projecto europeu. A Europa é o que resta ou o que vem depois da política e dos interesses nacionais. Hoje não temos líderes, temos apenas administradores executivos incapazes de uma decisão arriscada ou romântica. Somos governados por algoritmos humanos, onde não há lugar para o erro, para o frágil, para o humano.
A EU está profundamente doente, está infectada por um vírus, por um vírus chamado egoísmo, que é muito mais letal do que o Covid 19 porque além de destruir os tecidos dos pulmões fere de morte o coração: os valores da solidariedade e os valores da coesão económica, social e territorial que deveriam ser o verdadeiro suporte do projecto europeu.
No fundo a UE está infectada. Debilitada. Caminha sonâmbula. Simplesmente, vai, sem projecto, sem caminho e sem destino. Está parada e à chuva na linha do comboio. Inerte e insensível ao que vê. Na verdade, parece desprezar o valor da vida humana, o valor da solidariedade, o valor de ajudar. Uma EU que perdeu a capacidade de se comover. Fria, contempla do alto e vê, apenas, ruas vazias e tristes. Não imagina o sofrimento que vai dentro dos hospitais e das casas, nem acredita que os pavilhões gimnodesportivos servem como depósito para as centenas de caixões que esperam pela cremação. Se isto é a Europa? Então para que nos serve?

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