Correio do Minho

Braga, sábado

(Sem) Luz no fim do túnel

Mobilidade Sustentável

Ideias

2011-10-02 às 06h00

Carlos Pires

1. Desde ontem que o acto de comer à luz das velas, por muito apelo romântico que possa conter, poderá corresponder à resposta de muitas famílias portuguesas para contrariar o acréscimo do custo da electricidade já na próxima factura, fruto do brutal aumento do IVA, da taxa reduzida (6%) para a taxa máxima (23%), causando um grande impacto no orçamento familiar.
Como se já não bastasse a criação de uma taxa extraordinária do IRS, que nos retirará parte do subsídio de Natal, agora também este aumento do IVA, em bens tão essenciais como a electricidade e o gás, o que vem sacrificar ainda mais o bolso dos portugueses. Nada que já não soubéssemos - anos difíceis nos esperam e Deus queira que o Primeiro-Ministro tenha razão ao circunscrever esse duro período a 2 (dois) anos.
Muitas têm sido as vozes de directores de escolas a reclamarem “aqui d’el Rei” que não vão poder pagar a factura da luz e do gás. As recentes intervenções nas escolas, promovidas pela “Parque Escolar” - empresa pública de requalificação de centros escolares criada pelo anterior governo - resultaram na ampliação das instalações, equipamentos modernos, mas que consomem mais energia…. Escolas “de luxo”, mas mal concebidas em termos energéticos, deixando antever uma difícil gestão de tesouraria.
A jusante, mas a juntar-se ao nosso problema comum, o crescente endividamento da “Parque Escolar” (na ordem dos 946 milhões de euros!!) preocupa Nu-no Crato, Ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência, pelo que o Ministério por si tutelado irá avançar com um pedido de investigação às contas. Os gestores dos dinheiros públicos têm sido muito, mas muito relapsos… com a conivência de uns e de outros; seria bom haver tempo para alguns ajustes de contas com a Justiça!


2. E já que falamos em Justiça, que vergonha, mas que vergonha, o episódio ocorrido esta semana com Isaltino Morais. O tribunal de Oeiras ordenou a detenção do autarca, para cumprir a pena de 2 anos de prisão efectiva a que foi condenado, sem que um dos recursos tenha sido decidido pelo Tribunal Constitucional. Não é que o “estágio” forçado a que foi sujeito Isaltino - pernoitar 24 horas nos calabouços da Polícia Judiciária - tivesse trazido grande prejuízo ao município e mui-to menos ao país, mas… não havia necessidade… A Justiça ficou mal vista (uma vez mais!) e deu oportunidade a Isaltino de fazer um discurso de autovitimização. Tenho pena, mas apenas pelo que afectou a imagem da Justiça, confesso.


3. O Presidente da República anunciou que irá reunir o Conselho de Estado, cujos membros, “pessoas de elevada idoneidade e com provas dadas na vida pública”, opinarão e darão pareceres sobre a situação do país. Ora, lado a lado, entre as reputadas individualidades, tais como a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro, o Dr. Mário Soares ou o Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, eis que o “conselheiro” mais mediatizado dos últimos tempos já garantiu a sua presença. Quem? Alberto João Jardim, o líder madeirense. Sim, o mesmo que diz não fazer política para contabilistas e ter 'orgulho de ter feito dívida; abençoada seja a dívida!', numa semana em que os buracos de milhões de dívida daquela região autónoma parecem infindáveis. Cruzes, credo! Deus é grande e não nos pode desejar tanto mal! Estou certo de que fará incidir sobre Cavaco uma súbita e violenta otite, logo aquando dos primeiros impropérios vociferados por Jardim. É a esperança que nos resta…
O “Senhor Jardim”, que já reconheceu publicamente ter, de forma deliberada, ocultado o valor da dívida, irá a votos no próximo fim-de-semana. Quase aposto que, tal como em Oeiras, que reelegeu Isaltino após este ter sido condenado, também na Madeira os eleitores reconduzirão quem (tão mal) geriu os dinheiros da Região. O povo esquece-se de que os que os governam estão obrigados a fazer “o mais com menos”; que quem desbarata não merece a “respublica”. Esse “esquecimento” sai caro a todos e deixa-nos “às escuras”, impotentes perante factos como seja um sistema de saúde mais caro, como seja a suspensão dos prémios de mérito, de 500 euros cada, aos melhores alunos do Secundário do ano lectivo transacto (a 48 horas da cerimónia de entrega e já depois de os premiados terem sido notificados para os receberem!), como seja a ameaça de perda de parte da soberania que a Alemanha já fez incidir sobre os países incumpridores do Pacto de Estabilidade e Crescimento, nos quais Portugal se destaca.
E sabem o que vos digo? Que venha, que venha a Merkel, prefiro-a a levar com Isaltinos e Jardins e a muitos outros que por aí pululam. Talvez por gostar tanto do meu país, que tão mal tratado tem sido pelos que o têm governado, eu admita que determinadas questões, como a elaboração e gestão orçamentais, sejam supervisionadas por quem de facto já deu provas de bem prosseguir com o interesse colectivo. E um dia talvez possamos viver sem ansiedades e sem contar tostões. (Quem disse que a salsinha e a cerveja não “casam” com o arroz de sarrabulho?)

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