Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Ser professor

Os amigos de Mariana (1ª parte)

Ser professor

Voz aos Escritores

2021-11-26 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Não há consensos, mas há terrenos comuns. A definição começa pela capacidade de se munir de estratégias para passar conhecimentos de uma determinada área ou áreas científicas, de captar a atenção, contaminar com entusiasmo, lidar com estados de humor, com origens e contextos familiares.
Já limpei narizes e outras partes, segurei mãos e cabeças quando jatos imperativos saiam boca fora. Já dei colo, massagens na barriga e abraços quando o consolo estava à deriva. Já passei noites sem dormir preocupada com alguns. Incomodada por outros. Já ouvi a minha filha a dizer-me para deixar a escola na escola e em casa ser apenas mãe. Já dei apoios e aulas suplementares fora do horário, para os que querem trabalhar e aprender. Não sou mais do que ninguém. Há milhares de professores assim por este país fora, com sentido de missão, que teimam em não desistir dos alunos. Que teimam em não os deixar desistir deles mesmos, quando mais ninguém os ouve, quando mais ninguém os vê. Como disse o Ricardo Araújo Pereira numa famosa crónica, os professores são uns “adultos masoquistas”.
Como os meus colegas já ouvi também insolências, agressividades e despropósitos. São pistas que seguimos na procura da raiz dos problemas. E muitas vezes são muitos, diversos e bem camuflados nos pântanos do ser. E do estar. Também falhamos. Também nos enganamos e, às vezes, fazemos juízos de valor precipitados. Mas aprendemos e fazemos melhor a seguir. Aprendemos sobretudo a ouvir. Com atenção, a peneirar as palavras e os sentidos, acompanhados da expressão facial, da expressão dos olhos, tão essencial para detetar opostos do que é dito. Do que é feito.
Carregamos bagagem, com os anos, calos. Colecções de tiques, cromos repetidos, discórdias e confrontos. Autoridade na voz é tantas vezes uma bênção necessária para acalmar ânimos e chegar, depois, a entendimentos. Como as marés, que chegam umas atrás das outras.
Os pais, ou encarregados de educação, são os melhores aliados na procura do desenvolvimento sustentado, do trabalho contínuo, da persistência para não desistir perante as adversidades ou dificuldades. Os que dizem estou aqui para o que precisar, só precisam de um pouco de orientação. São os que estão ali, na retaguarda, pelos filhos. Os que querem ser pais e não apenas amigos, daqueles que passam as mãos nas costas e na cabeça. Que querem ser Amigos, dos que contrariam e fazem reflectir, os que pensam no futuro e onde querem chegar. Os que sabem que a montanha se escala todos os dias, com o objectivo da conquista lá ao fundo, na linha do horizonte. Ainda são muitos, felizmente, e são essenciais. São os que sabem distinguir educação de ensino, mas têm consciência que se complementam em todos os espaços onde a criança está e frequenta. São os que salvam e ajudam a salvar.
Não foi o meu caso, mas tenho inúmeros colegas que adiaram a vida pessoal à espera de um contexto menos instável. Anos e anos a serem colocados longe de casa, onde o ordenado mal chega para pagar as contas de alojamento e alimentação ou de transporte. Onde o salário nem sempre dá para vir a casa uma vez por mês, dependendo da distância. Onde Braga e Cinfães, por exemplo, se fazem diariamente para poder dar um beijo aos filhos, todas as noites, mesmo quando já estão a dormir. É inevitável a empatia, embora não tenha vivido estas experiências.
É por tudo isto, e mais o que não cabe aqui, que com profunda mágoa assisti ao longo dos anos à desvalorização da profissão de professor, como fomos assistindo ao mesmo em relação a outras, à falta de investimento nos recursos humanos e nas condições de trabalho, ao ponto de não haver professores. Adiaram-se os anos da reforma para camuflar uma desgraça anunciada. Agora, já não há remendos para tapar os tantos buracos que foram cavados. Mas ainda assim atiram-se umas ideias ao ar: estagiários colocados pelo país fora ao invés da sua zona de residência, profissionalização para quem tem habilitações suficientes (uma estratégia antiga e, embora se possam descobrir talentos adormecidos, dificilmente será a solução para as necessidades da escola de hoje) e alguma estabilidade ao permitir a entrada directa para os quadros de agrupamentos ou de escolas. Será?
E agora? Quem quer ser professor?

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