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Servir e servilismo…

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Servir e servilismo…

Ideias

2021-03-22 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Repetidamente, dizemos e escrevemos que o momento actual é momento excepcional e demasiado impactante para não gerar consequências e mudança, sem hesitação, de imediato.
Primeiro por reacção, depois por ajustamento e, depois, provavelmente para melhor vivermos e rentabilizarmos, vamos lutando em nome da adaptação e superando a nossa condição e o nosso modo de vida, olhando para o futuro com interrogação e para o passado, talvez, com saudosismo.
Também repetidamente, constamos que o Estado e a Administração Pública – muito centrada nas vertentes da saúde, economia e educação – são incontornáveis na nossa (actual) vida e suspiramos e exigimos um comportamento desse mesmo estado e dessa mesma Administração Pública assertivo e disponível, eficaz e eficiente.

No reconhecimento de que o momento é difícil e, tantas vezes, desconhecido e não experimentado, não somos (ou não devemos ser) figuras-mor de exigência pela perfeição e resposta plena do dito Estado e da dita Administração Pública aos problemas, dificuldades e desafios que a sociedade (ou comunidade) enfrenta. Antes, somos (ou devemos ser) exigentes no esforço e dedicação, no compromisso e da disponibilidade, ou seja, que tudo seja feito na melhor tentativa de “aquilo que deve ser feito” ter correspondência “àquilo que realmente se faz”. E “aquilo que se faz” “ser bem feito”, transformando, assim, em nova medida e novo significado as palavras eficácia e eficiência. “Fazer as coisas certas ou as coisas que temos de fazer” (eficácia) e “fazer bem feito aquilo que se faz” (eficiência) encontram, assim, neste momento pandémico, novas traduções: fazer aquilo que julgamos ser o que devemos fazer; fazer aquilo que devemos fazer com dedicação e esforço… trabalhando para mitigar e eliminar a incerteza e o desconhecimento, contribuindo para alcançar o melhor que seja para aquela situação e momento.

No caso do Estado e da Administração Pública coloca-se, assim e em primeiro plano, com nitidez e visibilidade talvez nunca tão explícita e transversal, o acto de servir como objecto central da actividade diária. Não se trata de funcionar ou de cumprir tarefas mas sim de servir, isto é, tentar compreender o que é desejado e necessário, de estabelecer equilíbrios exigidos e possíveis e tributar para a melhor solução… O equilíbrio entre o necessário e o desejado, entre o possível e o obrigatório.
Ao escrever estas palavras, vêm à memória palavras duras de J. Rentes de Carvalho que, em artigo, algures no tempo e em jornal, escreveu “muitos perderam o emprego e a casa, muitos fizeram dívidas que não podem pagar, muitos… ninguém saberá quantas famílias e futuros foram destruídos pela arrogância de um funcionalismo que, em vez de servir e cuidar, se toma por dono e senhor da coisa pública”. E acrescenta-se outras duas palavras, objecto de crónica de Miguel Esteves Cardoso: servir e servilismo.

Estes dois escritores, pensadores, homens atentos ao comum dos dias, adivinham o que vamos, ainda e tantas vezes, experimentando diariamente: uma Administração Pública usurpadora e manipuladora do poder, numa lógica de autoalimentação e subsistência, esquecendo o seu fim e objectivo maior; um Estado e uma Administração Pública feitos de uma mistura de quem trabalha, de quem decide e de quem “anda por lá”, na lógica do “sim / não” sempre dependente da posição e opinião de que servem (e aqui no sentido mais crítico e pejorativo do termo – a quem se sujeitam e de quem dependem…).

As palavras poderão ser duras e, porventura, exageradas. Mas, para quem escreve, são palavras que chegam como evidência de um quotidiano que se repete e que visibiliza:
(1). A necessidade de recentrar a essência do trabalho da Administração Pública. Esta existe para servir a sociedade e a comunidade, sendo o rosto do domínio público e, assim, veículo de concertação dos interesses, necessidades e desejos das partes em presença. Não é um instrumento mecanizado que se vai alimentando e respondendo a si próprio. Não! Se não existir sociedade e comunidade, então a Administração Pública esgota-se;
(2). Trabalhar na Administração Pública é mais do que cumprir obrigações laborais, executar tarefas como resultado de uma remuneração, integrar um processo mecanizado de autojustificação. É servir, ouvir, aceitar, conter, compreender, analisar, diagnosticar, estudar, propor, concertar, e tanto mais, no sentido de responder à especificidade do momento e da sociedade. Não para cumprir uma norma de serviço ou requisito de qualidade;
(3). No Estado e na Administração Pública são precisos “os melhores” ou “dos melhores”. Mas tal para emprestar os respectivos conhecimento, experiência e capacidade no sentido de contributos válidos e críticos para melhor se atingir o objectivo. Por isso, a crítica e a discordância são realidades que devemos, naturalmente, aceitar porque são inatas. A partilha, o debate e o compromisso são realidades que devemos praticar e cultivar porque parte da resposta à superação da crítica e da discordância. Devem ser “dos melhores” porque são (deveriam ser) eles – estado e administração pública – que tratam do que é comum a todos nós e velam pelo cumprimento das regras necessárias à nossa vida comum. Por isso, não é aceitável estar no Estado e na Administração Pública de forma acrítica e amorfa, praticando uma validação do pensamento de quem dependemos de forma deturpada e parcial.
Servir é verbo bonito de se conjugar. E praticar. É expressão maior da nossa condição humana. Valeria a pena pensar nisso. E exigir que, definitivamente, se passe das palavras aos actos…

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