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Sexta, que não é como outra

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Sexta, que não é como outra

Ideias

2022-04-17 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Sexta-feira Santa. Braga que palco empresta a directos televisivos em dose dupla. Manhã e tarde, eis que a cidade é sala de exterior da RTP – a carnavalada foi a usual e, assim sendo, ao arrepio da solenidade fundacional do dia. Recorda-se, aos distraídos, que o cristianismo se organiza em torno de paixão e morte singular e irrepetível, porque seguida de ressurreição do supliciado, que nossa será, a seu devido tempo, porque se gerado foi o Homem, para vida terrena, à imagem e semelhança do Pai, ressurecto há de ele ser para a vida eterna, à imagem e semelhança do Filho.
Eu sei que tudo isto foi pulverizado pelo avanço do racionalismo, pela banalização e dessacralização da existência. Eu sei que preferimos cotar-nos como uma espécie particular de pó, de sopro, de fluido; mas, tão vastas e complexas são as patranhas que nos balizam, que as antigas, as de índole religiosa, até nem saem muito da caixa, e venha quem arregace as mangas e me prove o contrário.
Veio a RTP com carros e pessoal, e dúvida comichosa me assalta: julgo saber que as televisões não dão borlas, isto é, que são as colectividades e as autarquias que avançam com o cheque, que contabilisticamente enquadram como publicidade e promoção, o que não deixa de ter sentido, reforçado até no caso de Braga, que concorre a capital europeia da cultura, brinco de que Guimarães já se adornou, vai para uma vintena de anos, e nós a vermos navios.
Vem a RTP e faz o que é costume, o que faria, ela por ela, para uma romaria, para um santo popular. Vem a RTP – para eles é um dia ganho; para o que conta, fundamentalmente, é um dia perdido.
Quem nos resgata à banalidade? Não ficámos nós psicologicamente mais frágeis com o colapso do mistério no final vertiginoso da infância? Se melhor caminhámos com duas pernas do que com uma, porque é que nos amputamos da transcendência, do oculto tangível? Volto ao que sei: eu sei que nestes terrenos muito dinheiro muda de mãos, que pessoas há que se fazem intrujar por intercessores sem escrúpulos, só que ninguém interdita definitivamente uma estrada porque nela ocorram acidentes – encerra-se temporariamente, quando muito, para estudo e correção de traçado, de visibilidade, de sinalização.
Faz a RTP o que sabe, por decalque, contra o que a entidade convidante deveria explicitar a especificidade da solenidade, propondo ou exigindo conteúdos distintos, convidados inabituais. Talvez a RTP declinasse a encomenda, talvez dissessem que o programa seria um tiro nas audiências, mas aí amigo não empata amigo, agora assim é que não. E haja a sabedoria para não o repetir.
Realmente precisamos de tradições, de ancestralidades, de encenações graves, de revisitações que nos remetam para o indizível. Se ricos somos pelo que sabemos explicar e prever sem entorses lógicos, que nos custa proclamar que pobres e estúpidos não ficamos com o que nos comove, com o que nos abala nas certezas comezinhas? De facto, tornamo-nos insensíveis, estereotipamos, quando nos encerramos em certezas absolutas, que umas o são para nós, e que outras, contrárias, o são para terceiros.
Iludimo-nos com o poder mecânico da certeza física, como antes nos iludiríamos com o poder sagrado e incomensurável do espírito, da alma, da fé, de um deus que professássemos. Não abdiquemos de tomar de um e de outro, de os escalarmos em nós no mesmo patamar de complexidade.
Quanto a Braga: se tanto – e bem! – se ufana do seu estatuto primacial, bom é que avance no sentido da densificação do sacro. A vulgarização caricatural é que é descabida.

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