Correio do Minho

Braga,

- +

Sextas-feiras e outros dias

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2017-02-21 às 06h00

João Marques João Marques

Plagio descaradamente o título da última obra de Cavaco Silva, ex-Presidente da República, na convicção de que a imitação é a forma mais sincera de elogio. Durante décadas, o antigo Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro e Presidente da República de Portugal fez o melhor que pôde e soube pelo seu país, estando agora legitimado, no recato da reforma política (que não cívica), a gozar do pedestal que se reconhece àqueles que já fizeram (quase) tudo aquilo que desejavam fazer na vida.

Acertou, errou, voltou a acertar e voltou a errar, como é normal em quem decide, mas nunca se escondeu do combate político. É certo que nunca apreciei a sua aparente repulsa pela refrega político-partidária, sobretudo vinda de alguém que nunca renunciou às suas convicções, sem prejuízo da evidente preferência pelo pragmatismo que sempre demonstrou na ação governativa. A inflexibilidade ideológica não foi uma opção durante os seus mandatos, até porque Portugal e os portugueses não são, como o não são os demais países e povos, ideologicamente puros ou coerentes.

Quis fazer do governo da nação um exercício prático de rigor e responsabilidade e, há que dizê-lo, na grande maioria do tempo em que governou, conseguiu fazê-lo. Não vou negar os desvios desta orientação, não vou negar más companhias e erros de estratégia ou agenda política, mas também não vou esquecer o seu contributo decisivo para a desestatização da economia ou para a liberalização da televisão. Se Mário Soares garantiu a adesão à UE (então CEE), Cavaco Silva foi decisivo para que nela permanecêssemos como membros de pleno direito. Destaco, por isso, a constância no rumo europeísta que sempre seguiu à frente dos sucessivos governos que liderou, rumo esse que manteve como fundamental enquanto Presidente da República, tudo fazendo para permitir que o país continuasse a merecer a confiança dos seus parceiros, até ao limite do possível.

A evocação das memórias da sua presidência no livro “Quintas-feiras e outros dias” tem gerado muita celeuma por se dedicar, entre outras coisas, a revisitar o tempo de coabitação com José Sócrates e a comentar, ainda que por caminhos menos evidentes, as atitudes e postura de atuais atores da política nacional, estando já prometida nova investida para o futuro próximo, com a publicação de novos volumes. Confesso que, com exceção do que já foi publicitado na imprensa nacional, desconheço o teor e a prosa deste novo best-seller. Por essa razão, a minha opinião não ultrapassará o que é do domínio público, mas também as circunstâncias de tempo e de modo que rodearam este novo livro.

Limito-me a tentar perceber o argumento daqueles que questionam o timing do lançamento destas memórias. “Porquê agora?”, perguntam, “E porque não?”, pergunto eu. Um ano depois de ter cessado o mandato e mais de onze anos passados sobre a primeira vitória eleitoral presidencial, há quem considere que não existe distanciamento histórico relevante que torne pertinente a vinda a público das revelações de Cavaco Silva, sobretudo coincidentes, de resto, com o período de governação de José Sócrates, cujo consulado terminou há quase seis anos.

Talvez esses preferissem que Cavaco esperasse pela hora da morte para dar à estampa aquilo que só ele pode reafirmar, provar e comprovar enquanto em vida, respondendo a quem seguramente desejaria dialogar com um defunto e espalhar a dúvida sobre certezas verificáveis. Talvez não tenham gostado que o livro se tenha tornado num manifesto testemunho acusatório da personalidade de José Sócrates, numa altura em que este esgravata a terra em busca de provas que o absolvam de factos e atos que, pelo que se sabe, não traçam um retrato muito favorável da personalidade e caráter do ex-Primeiro-Ministro.

É verdade que Portugal não tem uma tradição sólida de publicação destas memórias em jeito de (in)confidências, mas aqui, ao contrário, por exemplo, do que aconteceu recentemente com o livro de António José Saraiva, as histórias e as revelações urgem com um propósito coerente, com uma relevância histórica indesmentível e com um sentido crítico objetivo e não como meros panfletos cor-de-rosa de duvidoso gosto.

Lembrei-me deste livro e do seu título na passada sexta-feira, dia da última Assembleia Municipal, quando, na qualidade de membro eleito para aquela, assisti a um espetáculo deplorável, em forma de intervenção política, protagonizado por uma senhora eleita pelo (agora) movimento cívico CEM - Cidadania em Movimento, que é useira e vezeira em números de “enlameamento” de caráter alheio, sem cuidar sequer de saber se o que diz corresponde ou não à verdade. Prefere o histrionismo dos decibéis e o néon das parangonas ao enfado da realidade. Não vale a pena reproduzir a temática ou o alcance da intervenção, bastará dizer que tentou recuperar um tema já esclarecido para atacar o bom nome de um colega da bancada do PSD. Falou com a habitual presunção de superioridade moral. Falhou com a habitual azelhice política.

Como os bracarenses se recordam, este sobressalto do civismo e espontaneidade de um conjunto de bracarenses surgiu nas passadas eleições autárquicas, para dar voz a quem não a tinha. Curiosamente, no seio do CEM, apareceram, entre outras, pessoas como esta senhora ligadas ao Bloco de Esquerda, que inclusivamente exerceram cargos dirigentes na estrutura desse partido. Curiosamente também, esse partido, não apresentou nessa eleição de 2013 qualquer candidato aos órgãos autárquicos bracarenses, como havia acontecido no passado.

Dirá o mais cínico dos bracarenses que se esconderam por trás de um movimento cívico para não se estatelarem eleitoralmente, já que previam uma derrota eleitoral de dimensões humilhantes. Dirá esse cínico bracarense que lhes faltou a frontalidade e coragem que tanto apregoam para os demais agentes da vida pública, no momento em que ela era mais necessária. Dirá, ainda, que agora, provavelmente à boleia daquilo que lhes parece ser um ressurgimento nacional do partido, talvez seja tempo para retomar essa frontalidade e retidão de princípios e dispensar os simpáticos mas pouco consequentes movimentos cívicos, tão avessos a controlos partidários. Direi eu, por estrito interesse municipal, que me guardarei para as minhas memórias, por ora, fico-me pelo conhecido “CEM” comentários…

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

08 Dezembro 2019

A Sueca

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.