Correio do Minho

Braga, sábado

Simplesmente Eu...

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2015-08-26 às 06h00

Escritor

Carlos Ribeiro

Lembro-me do tempo em que era só uma menina. Alegre e feliz nos meus dias, sonhadora e teimosa, mas ao mesmo tempo determinada e encantadora. Eu sentia o orgulho dos meus pais e até da minha irmã mais velha, quando a professora da escola primária me elogiava, afirmando ser inteligente e trabalhadora. Iria longe, dizia ela... e eu acreditava, claro!
Os anos foram passando e cada vez gostava mais de mim. Sabia que era bonita e desenvolvida para a minha idade, porque facilmente percebia os olhares atrevidos dos rapazes. Até que um dia, as hormonas deram sinal de vida e o inevitável aconteceu... apaixonei-me aos catorze anos! Uma paixão avassaladora pelo rapaz mais bonito da escola, desejado pela grande maioria dos membros do meu sexo e, ainda por cima, três ou quatro anos mais velho. Um ser em tudo perfeito...

Com ele aprendi e descobri o amor, os encontros furtivos, as escapadelas para as discotecas aos domingos à tarde, as caminhadas até praias longínquas, os beijos roubados e desafiadores e, finalmente, o sexo. Andava nas nuvens... tudo era novo, excitante, prometedor. Deitava-me todas as noites e sonhava com príncipes montados em alazões brancos, com casamentos reais e eternos, uma imensidão de filhos perfeitos e loiros como o pai... e acordava com um sorriso permanente colado na cara!

O ilídio durou dois maravilhosos anos, onde perdi a minha inocência e ganhei uma infinidade de coisas mais... até que acabou! Chorei uns dias lamentando a minha infelicidade, até levantar o queixo dos meus dezasseis anos, sorrir-me ao espelho e continuar a achar-me linda... Meses depois, conheci o meu segundo amor. Um rapaz meia dúzia de anos mais velho do que eu, maduro para a idade e sofrido como poucos. Alegre e bem humorado, não obstante as provações por que, ainda tão novo, tivera que passar. Conseguia ultrapassar as coisas complicadas que iam surgindo na vida com coragem.

Foi, sem dúvida, essa forma simples, batalhadora e honesta de encarar vida que me fez apaixonar novamente. Isso e, claro, uns intensos e magníficos olhos azuis! Vivia feliz, consciente e com a certeza absoluta de que aquele seria o meu verdadeiro amor para o resto da vida. No entanto, depois dos primeiros contactos com a minha família, a quem eu orgulhosamente apresentei, fui sentindo alguma animosidade contra ele que eu não conseguia entender, nem explicar.

Os “defeitos” pareciam surgir do nada, com críticas estranhas e quase sempre silenciosas como se, tudo o que eu tinha visto nele, não passasse de uma ilusão na minha visão apaixonada da vida e do amor. Instintivamente, comecei a afastar-me da minha família, isolando-me ou procurando refúgio nos braços dele, criando um círculo protetor à minha volta, à nossa volta. Obviamente que esta situação, recorrente no tempo, acabou por nos unir ainda mais, pelo que passamos a estar juntos praticamente todo o tempo disponível, fosse onde fosse.

Em casa era cada vez mais difícil estar ou conviver, naquele silêncio opressivo em que as palavras de raiva e incompreensão me enchiam os pensamentos. Saía sempre que podia, sentindo-me aliviada pelas aulas no secundário e mais tarde, na universidade. Um dia, aos dezoito anos, o meu mundo parou... Engravidei e senti o chão desabar aos meus pés. Lentamente, após a surpresa inicial, percebi que não podia contar com ninguém, a não ser ele. Se, sem motivos, a minha família me virava constantemente as costas, o que fariam se soubessem que estava grávida, a estudar, sem emprego, sem dinheiro, sem casamento, sem marido?

Lembro-me de, na altura, sentir que a minha vida tinha acabado. Tudo era aterrador, um pesadelo palpável e real que me consumia as entranhas dia e noite! Ele, oriundo de uma família simples e com os seus problemas, não estava muito melhor do que eu, igualmente sem dinheiro, sem apoio, sem independência. Ainda assim, não me abandonou e, após conversas e discussões intermináveis, decidimos que não podíamos ter aquela criança, naquelas circunstâncias...

E a menina linda que eu era, tornou-se uma estranha para mim... ao ponto de decidir cometer uma atrocidade contra mim própria, contra o homem que eu amava, contra a minha família e, acima de tudo, contra Deus... A partir desse dia, nunca mais fui a mesma mulher. Sentia-me inexplicavelmente vazia, como se o facto de ter crescido à força me tivesse transformado noutra pessoa. Felizmente ele esteve sempre ao meu lado e, se de alguma forma a nossa decisão o tinha magoado, nunca me disse. Nunca mais tocamos nesse assunto, nem entre nós nem com mais ninguém... Não falar, para esquecer... Como se fosse possível!

Os anos foram passando, acabei o meu curso e comecei a guerra por um emprego. Centenas de envios de currículo, algumas entrevistas, ofertas precárias e temporárias, enfim, tentativas de avançar em frente com a minha vida. Um emprego, uma casa e viver com o homem que amava. Talvez até ter um filho ou dois, quem sabe...

Mas, as coisas não aconteceram assim. Devido ao impasse na relação, em que parecia que nada mudava dia após dia, ano após ano em que, embora agradáveis, fazíamos sempre as mesmas coisas, o ainda contínuo conflito com a família, ou às mudanças operadas dentro de mim, a verdade é que a relação esmoreceu, dando espaço a que outra pessoa entrasse na minha vida... o que não me trouxe nada de novo, nem sequer a capacidade de preencher a minha solidão. Continuo sozinha...

Seja como for, hoje sou uma mulher com uma imensa sensação de perda. Talvez até, de culpa... Mesmo assim, sei que ainda sou aquela menina linda, sonhadora, apaixonada, e que, um dia, inevitavelmente, vai ser feliz...

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