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Sinto-me ZOOM-afadigado

Pensar o futuro

Sinto-me ZOOM-afadigado

Escreve quem sabe

2021-03-20 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Na juventude ouvi amiúde a expressão “esgotamento cerebral”. Parecia convenientemente servir para justificar faltas escolares, em particular quando havia testes e exames. Recordo-me de ter tido vários colegas com essa curiosa maleita. Soava-me misteriosa e fazia-me perguntar se isso era possível, se o nosso cérebro podia mesmo esgotar. Mais tarde fiquei fascinado com o “esgotamento nervoso” e com o “burnout”. Agora chegou a “fadiga-do-ZOOM”.
O programa de software videotelefónico desenvolvido pela Zoom Video Communications, que permite realizar reuniões, aulas e conferências online, é aqui tomado como sinédoque para aqueloutros que propiciam idênticos serviços (Cisco Webex Meetings, Microsoft Teams, Blackboard Collaborate, etc.).

Esta psicomorbidade, um dos efeitos imprevistos da pandemia da Covid-19 na saúde mental, é recentíssima. À data do início oficial desta pandemia em Portugal, a 2 de março de 2020, o ZOOM tinha cerca de 15 milhões de utilizadores ativos. Um ano depois conta com mais de 300 milhões. Esse gigantesco crescimento do número dos seus usuários resultou, sobretudo, das medidas de confinamento decretadas na maior parte dos países do mundo e da consequente necessidade de uma conversão rápida de muitas pessoas para o teletrabalho e o telensino. Calcula-se que um quarto da população mundial – cerca de 2 mil milhões de pessoas – esteja a recorrer a plataformas de interação virtual como essa para trabalhar, ensinar e aprender. O que aconteceu, entretanto, foi que o uso excessivo das mesmas começou a provocar uma forma de cansaço ou esgotamento precisamente designada fadiga-do-ZOOM.

Num primeiro estudo sobre esse novo fenómeno, realizado pelo Laboratório Virtual de Interação Humana de Stanford e publicado na revista Technology, Mind and Behavior (23/2/2021), foram identificadas 4 causas para a sua manifestação: (1) contacto visual excessivo: ficarmos todos parados a olhar fixamente uns para os outros acaba por se tornar muito stressante, tanto mais quando apenas visualizamos os rostos de cada um; (2) autocontemplação permanente: estarmos continuamente a ver-nos a nós mesmos, como se estivéssemos em frente a um espelho, é igualmente pouco natural e bastante cansativo, fazendo com que aumentemos a severidade crítica em relação a nós mesmos, à nossa performance, e comecemos a gerar emoções negativas; (3) diminuição dramática da mobilidade; a permanência no mesmo lugar afeta o desempenho intelectual; (4) sobrecarga cognitiva: a supressão dos elementos de comunicação não verbal faz aumentar muito o esforço para interpretar o conteúdo das mensagens verbais a serem transmitidas.

Os autores do estudo desenvolveram corolariamente uma escala de “Exaustão e Fadiga de ZOOM” (ZEF), que vai de 15 pontos (-) a 75 pontos (+). Apresenta 5 tipos: fadiga emocional: quão esgotados nos sentimos após a interação continuada via ZOOM com outras pessoas; fadiga motivacional: quão motivados nos sentimos para iniciarmos uma atividade via ZOOM; fadiga visual: quão afetada sentimos que fica a nossa capacidade visual pela exposição ao vídeo ecrã; fadiga social: quão desejosos ficamos de querer estar sozinhos após essa interação continuada via ZOOM com outras pessoas; fadiga geral: quão cansados nos sentimos após essas experiências.
Tive a oportunidade de realizar o teste online e obtive 62 pontos. Isso significa que estou no percentil 62 e que 38% das pessoas sofrem mais de “fadiga-do-ZOOM” que eu. Ainda assim concluo que o melhor será não abusar e começar a pensar numas “férias-do-ZOOM”.

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