Correio do Minho

Braga, terça-feira

Sobra passado e falta futuro

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2015-09-22 às 06h00

Jorge Cruz

No final da passada semana, o líder da oposição anunciou que, na hipótese de a coligação de direita vencer as eleições legislativas, o PS não deixará passar o Orçamento do Estado para 2016. António Costa esclareceu ainda, na entrevista à Antena 1, que “a última coisa que fazia sentido é que o voto no PS, que é um voto das pessoas que querem mudar de política, servisse depois para manter esta política”.

Estas palavras do dirigente socialista provocaram uma série de ondas de choque nas hostes da aliança laranja-azul, e daí a avalanche de críticas com que foi brindado.
Percebo que em clima pré-eleitoral a franqueza de Costa possa ser confundida com inabilidade política e até ser usada como arma de arremesso. O período de caça ao voto é, de facto, propício a “sound-bites”, a tiradas mais ou menos espectaculares, a inverdades e mentiras, enfim, a todo o tipo de insinuações e afirmações. Mas não deveria ser assim.

Acostumaram-nos, e nós aceitamos passivamente, a que os agentes políticos afirmem uma coisa e o seu contrário, por vezes num espaço de dias, quando não de horas.
Habituámo-nos a aceitar com toda a normalidade, como se essa fosse uma certeza do destino, o incumprimento de compromissos eleitorais, o absoluto desprezo pelos eleitores, mesmo quando a sua vontade é democraticamente expressa nas urnas.
E surpreendemo-nos quando um líder partidário usa da máxima sinceridade para anunciar o que se propõe fazer, por muito que o cumprimento desse seu compromisso possa desagradar a uns quantos.

Podemos não apreciar a decisão que Costa anuncia, podemos não gostar das propostas que ele apresenta ao eleitorado, mas não podemos deixar de reconhecer a sua franqueza ao garantir a impossibilidade de acordo entre o PS e a coligação de direita, ao assegurar o chumbo do seu partido a um eventual Orçamento de Estado da coligação.
Não se trata, ao contrário do que foi afirmado por alguns adversários políticos do líder socialista, de qualquer manobra chantagista ou, como outros ousaram acusar, de uma atitude anti-patriótica. O contrário é que seria uma condenável traição aos eleitores socialistas que, naturalmente, ao votar em Costa pretendem uma mudança de políticas e não uma mera alternativa de poder.

Este ruído à volta desta questão é, também por essa razão, incompreensível.
Convirá relembrar que as campanhas eleitorais têm como objectivo primordial o esclarecimento rigoroso dos eleitores, designadamente através da apresentação e discussão das promessas que as diversas candidaturas se propõem aplicar em caso da sua legítima validação pelo voto popular.
É este princípio basilar, este autêntico mandamento dos políticos, que tem andado bastante arredado da actividade política, como, aliás, facilmente se constatou nos debates entre os dois principais candidatos a liderar o próximo governo.
Sobra passado e falta futuro poderia ser a súmula da generalidade das intervenções políticas, quer nos debates quer na longa pré-campanha eleitoral com que fomos bombardeados.

Mais do que discutir alguns fait-divers, como aquele de se saber quem chamou a tróica, o importante mesmo são os temas que muito justamente preocupam os portugueses. São matérias que têm que ver com o nosso futuro comum e que, principalmente após uma legislatura dominada por uma austeridade violentíssima e quase sem limites, todos querem e têm direito de conhecer. E sobre estas candentes questões, isto é, quanto a propostas concretas, quanto a compromissos de adopção de políticas diferentes, com os correspondentes números orçamentais, temos de convir que o saldo positivo pende francamente para Costa.

Muito pouco, convenhamos, para um país tão exaurido que nem conseguiu segurar, bem pelo contrário, incentivou à partida, o que tem de mais valioso - os portugueses e, particularmente, os jovens que são o futuro de qualquer nação.
Faço votos para que a campanha eleitoral agora iniciada seja portadora dos temas que na verdade interessam aos eleitores, com propostas claras e tão esclarecedoras quanto possível. Basta de exercícios que tentam desviar as atenções procurando inibir qualquer debate sério.

O confronto de propostas e de opiniões é imprescindível para o esclarecimento. É, pois, tempo de a direita também se comprometer com o eleitorado e dar a conhecer as suas propostas. Só assim se conseguirão cidadãos mais esclarecidos, logo mais conscientes e, eventualmente, mais participativos no futuro com o que a democracia sairá reforçada

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