Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sobram palavras e escasseia a acção

O que nos distingue

Ideias

2014-12-23 às 06h00

Jorge Cruz

O Arcebispo Primaz de Braga divulgou há dias a sua habitual mensagem de Natal, um documento pleno de oportunidade, não apenas pelas tradicionais e esperadas referências ao período natalício que atravessamos, mas especialmente pelos recados que envia aos políticos e à comunicação social.

Num documento a que deu o título “a eloquência da acção”, D. Jorge Ortiga começou por afirmar que “a sociedade moderna está marcada pela palavra” para lembrar de seguida as diferentes formas e ocasiões do seu uso. A esse propósito o prelado bracarense vinca que o Natal “é tempo de contemplar, de ‘tomar conta da Palavra para que Ela tome conta de nós”, pelo que lança o apelo “a uma palavra diferente da nossa parte”.

A mensagem do Arcebispo Primaz acentua, portanto, a relevância de “uma palavra que seja testemunho para a sociedade”, ou seja, a necessidade de garantir que os vocábulos proferidos tenham sempre correspondência com as acções, com a realidade.

“Neste período natalício - afirma D. Jorge Ortiga - como gostaria de verificar que as palavras dos políticos não fossem mero balbuciar de sons sem correspondência existencial”. E “como seria bom - acrescenta o prelado bracarense - que a comunicação social não se vendesse a interesses mas optasse coerentemente pela verdade”.

Os lamentos e recados do arcebispo D. Jorge Ortiga têm toda a razão de ser e neste período natalício adquirem outra dimensão, outro valor tanto mais que existe na sociedade portuguesa uma certa saturação pelo facto de a palavra dos políticos se encontrar bastante desvalorizada. E isso acontece, com frequência crescente, em função do constante incumprimento de promessas e, ainda pior, da adopção de políticas não sufragadas. Mas não só. Também pela utilização exagerada, e frequentemente até obscena, de meios públicos em acções mascaradas de comunicação, mas que, em boa verdade, são embustes que não passam de mera propaganda visando melhorar a imagem e, desse ponto de vista, enganar os eleitores.

Numa altura em que o sofrimento humano atinge proporções assustadoras, numa época em que a fome já deixou de ser uma perigosa ameaça para se transformar numa triste realidade, cada vez mais dramática do nosso quotidiano, é imperioso que as palavras dêem lugar às obras.
Não podemos continuar a compactuar com a miséria que se instalou na nossa sociedade, calamidade que atinge com particular violência os mais fragilizados social e economicamente e, entre estes, os idosos e as crianças.

Temos obrigação de recusar o agravamento do fosso entre ricos e pobres. Assiste-nos o dever cívico e moral de nos insurgirmos contra todo o tipo de prepotências. De lutarmos contra os sucessivos ataques que os neoliberais e seus companheiros de viagem têm vindo a fazer à escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde e à Segurança Social. Enfim, de protestarmos contra a filosofia dominante no poder de tudo privatizar deixando que o controlo de áreas essenciais da nossa economia se escape para o estrangeiro.

Mas a verdade é que para os detentores do poder os sucessivos protestos têm sido pouco audíveis. A sua insensibilidade social é tão desmedida que se confunde com a sua colossal arrogância. Ignoram ostensivamente tudo que é dissonante das suas políticas. É também por essa razão que vozes politicamente isentas mas moralmente comprometidas com a defesa da dignidade humana, de que é exemplo D. Jorge Ortiga, são sempre de saudar, em especial quando, como no caso presente, não hesitam em denunciar o que está errado, fale-se de prepotência, de insensibilidade ou de ausência de humanismo dos governantes. E o Natal é uma época de excelência para chamar a atenção aos mais empedernidos.

Comungando do espírito natalício que atravessamos, desejo Boas-Festas a todos os leitores.

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