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Sobre o cuidado da Casa Comum

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Sobre o cuidado da Casa Comum

Ensino

2020-05-20 às 06h00

Ana Cristina Rodrigues Ana Cristina Rodrigues

Na Carta Encíclica Laudato Si’ sobre O Cuidado da Casa Comum o Papa Francisco refere que “o urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.”
Esta carta faz uma breve resenha dos vários aspetos da atual crise ecológica e aborda a questão da escassez dos recursos naturais, em particular da água. A água é um recurso natural de primordial importância, indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos, mas, em muitos locais, a procura excede a sua disponibilidade. Em muitas regiões do mundo, a seca compromete a produção de alimentos e a população não tem acesso a água potável. Noutros locais, a par da deterioração da qualidade da água, cresce a tendência para se privatizar este recurso natural, convertendo-o numa commodity sujeita às leis do mercado.

Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. O desperdício de água que se verifica, não só nos países desenvolvidos, mas também naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas de água, mostra que este problema é, em parte, uma questão educativa e cultural, porque ainda não há uma consciência global da gravidade destes comportamentos num contexto de grande desigualdade. A análise dos problemas ambientais implica uma análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente. Isto remete para a questão da ecologia integral, que exige que se dedique algum tempo para refletir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais. É fundamental procurar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não se pode dissociar a crise ambiental da crise social. O desafio que se coloca é o de uma única e complexa crise socio-ambiental e as diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, a desigualdade e, simultaneamente, cuidar da Natureza.

A aplicação do conceito de ecologia integral numa reflexão sobre os sistemas de saneamento esteve na origem do projeto ECOSAN promovido pela Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, em parceria com o CIIMAR da Universidade do Porto e o Portal da Construção Sustentável, com o apoio do Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e Ação Climática.
Se pensarmos, por um lado, que a descarga de um autoclismo origina um desperdício de 3 a 6 L de água potável e, por outro, que milhões de pessoas ainda morrem anualmente por falta de água e saneamento, rapidamente percebemos que ainda há um caminho árduo e necessário a percorrer para se conseguir alcançar o 6º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável definido pela ONU na sua Agenda para 2030, de assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos.

O projeto ECOSAN permitiu identificar diferentes soluções tecnológicas, inspiradas na Natureza e em princípios de circularidade, incluindo sanitários secos ou de baixo fluxo e ilhas flutuantes ou leitos plantas para o tratamento de águas, que poderão integrar um modelo de saneamento ecológico integral, em contextos específicos, como unidades de turismo rural ou habitações em locais onde a ligação à rede de saneamento não é técnica e economicamente viável. Algumas destas soluções carecem ainda de desenvolvimento tecnológico, para que possam ser disponibilizadas no mercado em modelos funcionais, com design atrativo e a um preço justo, o que poderá constituir uma oportunidade para as empresas que, nos dias que correm, se veem obrigadas a reinventar os seus modelos de negócio e processos produtivos, em prol da sustentabilidade ambiental, económica e social.

É claro que, se assumirmos o compromisso e a responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento sustentável e integral, procurando viver em harmonia com a Natureza, poderemos ter que alterar hábitos ou até privar-nos de algo que até agora tínhamos como adquirido. Mas não é o que temos vindo a fazer nos últimos tempos? A realidade tem-nos forçado a fazer uso de uma das características mais valiosas do sapiens, a nossa capacidade de adaptação. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

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