Correio do Minho

Braga,

- +

Sobreendividamento

O amor nos tempos da cibernética

Escreve quem sabe

2011-04-23 às 06h00

Fernando Viana Fernando Viana

A sociedade de consumo em que vivemos (ler no pretérito, uma vez que é duvidoso para a maioria, que esta sociedade subsista no presente), trouxe-nos a possibilidade de adquirir miríades de bens e serviços, que contribuíram, pela sua diversidade, utilidade ou futilidade, para melhorar a nossa qualidade de vida (será que melhorou mesmo?).
Assistimos ao aparecimento do computador pessoal, que se tornou quase uma extensão de nós próprios, a par de mil e um outros gadgets tecnológicos (como os telemóveis que já vão na sua 4.ª geração, ipods, ipads, tablets, MP3, bimbis, casas inteligentes, entre muitos outros), cada um tecnologicamente mais evoluído, mais perfeito, com mais funções, ou esteticamente mais belo que o anterior. Surgiram ainda conceitos oriundos do marketing como a obsolescência programada, destinados a induzir o consumidor a adquirir um novo produto, não porque o que tem não serve ou não presta, mas porque a publicidade, ou o marketing levam a que rapidamente o consumidor o despreze, desvalorize e pretenda substituir. É esta também uma função do marketing, associando o status social à posse e utilização de certos bens: fazem-nos crer que ou estamos dentro, surfamos a onda da moda ou então somos caretas, estamos fora, sentimo-nos descartados.
Ao nível dos serviços as coisas não são muito diferentes. Existem propostas para tudo e mais alguma coisa: desde os tradicionais serviços financeiros, seguros, lavandarias, até aos mais recentes health clubs, agências de dating, empresas de domótica, energias renováveis, tatuagem e body piercing, passando pelos mais individualizados, como aqueles que se propõem traçar a árvore genealógica da nossa família ou organizam viagens à Antárctida. Imagine o que quiser. Se estiver disposto a pagar, certamente que existe uma empresa que assegura o serviço que pretende.
Tudo isto gerou nas pessoas e nas famílias uma necessidade de buscar constantemente bens e serviços que consomem a totalidade do rendimento disponível das famílias. Mesmo assim isso não foi suficiente, pelo que o recurso ao crédito e o aparecimento das empresas que o concedem e de novas e mais fáceis formas de o obter, tiveram um crescimento sem paralelo nos últimos anos.
De facto, o crédito é uma forma interessante e de certo modo até justificável de antecipar a aquisição de bens e serviços, melhorando a qualidade de vida das pessoas. Na verdade, sem acesso ao crédito, quantos poderiam adquirir de imediato bens de valor elevado como uma casa ou mesmo um carro?
A generalização do crédito a todos os estratos da sociedade com uma enorme facilidade (e às vezes irresponsabilidade), gerou porém em muitas pessoas o sentimento de que podem ter acesso a tudo o que entenderem sem limitações. Querendo, tendo um desejo, para o satisfazer, basta “fazer um crédito”. Seja para a compra da casa, do carro, da roupa, das férias, ou simplesmente jantar no restaurante, basta, efectuar um empréstimo para a aquisição de habitação ou um ALD ou leasing, um crédito ao consumo ou simplesmente apresentar o cartão de crédito.
Progressivamente, o nível de endividamento das famílias foi aumentando. Apesar de muitos não reunirem objectivamente condições para recorrerem ao crédito (ou a tanto crédito), seja por terem empregos precários, seja por insuficiência de rendimentos, nada pareceu preocupar nas duas últimas décadas os consumidores e os concedentes de crédito (Bancos e SFAC’s, nomeadamente).
O crescimento das taxas de endividamento e a multiplicação dos casos de sobreendividamento são preocupantes só por si. Contudo, com uma crise económica e financeira como aquela em que estamos mergulhados actualmente, é urgente encontrar respostas para fazer face a este tipo de situações, bem como impedir que estes problemas venham a aumentar ainda mais.
Endividamento não é a mesma coisa que sobreendividamento. De facto, uma pessoa diz-se endividada quando apresenta uma ou mais dívidas a outrem (por ex. o crédito resultante da compra da casa). Contudo, desde que cumpra com as suas obrigações face ao detentor do crédito, mal nenhum advirá de tal facto. Já o sobreendividamento resulta de uma situação em que o devedor está impossibilitado, de forma permanente para proceder ao pagamento dos seus compromissos, o que pode ser o resultado de ter contraído mais obrigações do que aquelas que o seu património e rendimentos permitem solver ou ainda pela ocorrência de circunstâncias imprevistas como sejam o aparecimento de uma doença, a situação de desemprego involuntário ou o divórcio, que determinam uma ruptura no rendimento disponível do devedor ou, ao invés, provoca um aumento da despesa (ex. da doença), ou ainda a junção das duas, isto é, diminuem os rendimentos por um lado e aumentam as despesas pelo outro. Nas próximas crónicas iremos abordar alguns aspectos relacionados com o sobreendividamento e as formas de lidar com este fenómeno dos nossos dias.
Caso queira saber mais sobre este tema ou tenha alguma dúvida, não hesite:
Contacte o CIAB - Centro de Informação Mediação e Arbitragem de Consumo (Tribunal Arbitral) na sua sede sita na R. D. Afonso Henriques, nº1 ( Edifício da Junta de Freguesia da Sé )4700-030 Braga, pelo telefone 253617604 ou por e-mail para geral@ciab.pt ou no respectivo serviço instalado na sua Câmara Municipal (veja também na Internet em www.ciab.pt ).

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.