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Sociedade, política e amor em tempos de pandemia

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Sociedade, política e amor  em tempos de pandemia

Ideias

2020-04-06 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

De um dia para o outro quase tudo mudou. Pediram-nos que ficássemos em casa. Pediram-nos que evitássemos os almoços de Domingo na casa dos nossos pais e avós. Pediram-nos que trabalhássemos preferencialmente por telefone e computador. Pediram-nos que adiássemos as festas de aniver- sário, os casamentos e os jantares que sempre foram um pretexto para estarmos juntos. Pediram-nos que não saíssemos à noite. Pediram-nos que não fôssemos às livrarias, aos museus, aos teatros, aos cinemas, aos locais de culto, aos cabeleireiros, aos salões de jogos ou às lojas de tudo o que não é essencial. Pediram-nos que mudássemos brutalmente os nossos hábitos.
No início de 2020 ninguém imaginaria que em Abril estaríamos a viver um momento assim. A pandemia COVID-19 é um desafio brutal que ameaça a vida e a saúde das pessoas e que tem um impacto devastador na estrutura económica e social da nossa sociedade. Todos estamos em perigo mas os mais vulneráveis encontram-se ainda mais desprotegidos: os doentes e as pessoas que apresentam fatores risco pelos efeitos direitos e indiretos na sua saúde; os pobres pelo agravamento das suas condições de vida; os que ficaram desempregados ou perderam os seus rendimentos pela pobreza que os ameaça; os que se encontram presos pelos riscos acrescidos da vida comunitária enclausurada; e as pessoas que sofrem de doença psiquiátrica pela redução dos cuidados regulares de saúde mental e pelo risco de agravamento das suas doenças.

A nossa sociedade está confrontada com desafios gigantescos ao longo dos próximos anos. A retração económica mundial e os seus impactos sociais são inevitáveis, pelo que é necessário amortizar os seus riscos para benefício de todos. Tão importantes como as medidas de afastamento social determinadas pelo Estado de Emergência são as medidas de proteção social determinadas pelo Governo. É que, se o Estado social não garantir suporte aos mais vulneráveis, as consequências sociais da pandemia COVID-19 serão muito mais graves do que quaisquer impactos da infeção pelo vírus.
Depois de uma invulgar unanimidade nacional no ataque inicial à pandemia, a última semana foi marcada pelo surgimento de algumas divergências políticas que se interpretam como saudáveis e necessárias numa sociedade democrática liberal e madura. As causas e as consequências de uma pandemia que ninguém previu são agora interpretadas à luz das ideologias de cada um.

As coisas são o que são: o mundo em que vivemos está longe de ser perfeito; a economia baseada no aumento sistemático do consumo precisa de ser repensada; a proteção do ambiente tem que ser colocada na equação do desenvolvimento económico e social; e a redução das assimetrias tem que ser uma prioridade para não deixarmos ninguém para trás. Mas a verdade é que os efeitos negativos desta pandemia serão muito menores hoje do que seriam há 50 anos e isso deve-se ao progresso social, científico e tecnológico que a democracia, a liberdade, o humanismo e a ciência nos permitiram alcançar.
Na última crónica de 2019, confessei a minha inquietação com a perigosa ascensão de movimentos nacionalistas, populistas e anticientíficos. A pandemia é, precisamente, uma excelente oportunidade para lhes resistirmos. Ao contrário de outras doenças e de outros fenómenos económicos e sociais, as consequências da pandemia são imediatas, permitindo mostrar como estão errados aqueles que vivem dos mitos anti-ciência, das mentiras a que chamam “fake news” e das falsas soluções do populismo.

Não acredito que os adeptos de “homeopatias” ou de irracionais movimentos anti-vacinas não desejem que se descubra uma vacina contra o vírus para reduzir brutalmente o número de mortos e os impactos da pandemia nas nossas vidas. Desejem-no ou não, uma coisa é certa: a vacina chegará e a sua importância será tão inequívoca que estes movimentos anticientíficos terão alguma dificuldade para voltar a assustar as pessoas com as suas ideias. Na política, o fenómeno foi semelhante. Durante os últimos meses, Trump, Bolsonaro e Boris Johnson debitaram alarvidades para convencerem as pessoas das suas ideologias. Apesar de estarem inequivocamente errados, a verdade é que algumas pessoas acreditaram neles porque as consequências das suas decisões políticas demoram tempo a sentir-se nas suas vidas. Com a pandemia, tudo foi diferente: em poucos dias ou semanas, os populistas foram obrigados a recuar nas suas declarações anticientíficas, discriminatórias e politicamente irresponsáveis acabando por seguir o caminho mais difícil, menos popular e mais sensato dos governos democráticos liberais.

A pandemia está a colocar-nos desafios únicos e impensáveis. Há, contudo, algo que se mantém inalterado. Ainda que mais afastados, o amor em tempos de pandemia não mudou. Seja nos cumprimentos, nos olhares, nas filas de supermercado, nas urgências hospitalares, nas empresas de distribuição, nos trabalhadores que recolhem o lixo, nos agentes de autoridade, no telefone, nas vídeo-chamadas, nos textos, nas fotografias ou nos pensamentos, o amor que nos une e conforta mantém-se como um elemento fundamental para que juntos possamos vencer o desafio, rejeitar todos os discursos de ódio e não deixar ninguém para trás. E isso nem a pandemia conseguiu mudar.

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