Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Sócrates: coragem ou loucura?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2015-06-15 às 06h00

Carlos Pires

José Sócrates recusou a proposta do Ministério Público. Recusou sair da cadeia para ir para casa, com pulseira eletrónica. Coube ao juiz Carlos Alexandre decidir que o preso número 44 do Estabelecimento Prisional de Évora manter-se-ia nessa condição, a aguardar os desenvolvimentos da ‘Operação Marquês’.
O ex-primeiro-ministro explicou os motivos da recusa: não vai pactuar “com a utilização da prisão domiciliária com vigilância eletrónica como instrumento de suavização, destinado a corrigir erros de forma a parecer que nunca se cometeram”.

Não há memória de um preso preventivo que tenha recusado a possibilidade de ir para casa com pulseira eletrónica. As reações não tardaram. Para uns, José Sócrates revelou coragem e carácter em recusar a alteração de uma medida de coação que, do ponto de vista seu bem-estar humano e pessoal, era mais confortável, mas que constituía uma humilhação e uma “tentativa de o achincalhar”. Para outros, Sócrates é visto como um fanático, que utiliza uma argumentação demagógica e perigosa, comparável a um “kamikaze”, “a um oficial japonês da 2ª Guerra Mundial que abre a barriga com um sabre, para evitar a rendição, ou mesmo ao nazi, que se suicida com cianeto”.

O que pensar desta novela?
Sócrates parece julgar-se acima de tudo e de todos, incluindo da Justiça. Opta por a enfrentar; opta por exercer pressão, mesmo sabendo que é o único arguido do processo a continuar na prisão, onde entrou no dia 24 de novembro do ano passado, tal como Santos Silva (no mês passado passou para prisão domiciliária) e o motorista João Perna (libertado ao fim de um mês, passou a estar preso em casa e agora só tem de se apresentar uma vez por semana numa esquadra da polícia). Considerar que a passagem de uma medida preventiva de cadeia para prisão domiciliária é “uma humilhação e uma tentativa de achincalhar” é uma falácia, até porque se trata de uma medida mais branda do que a atual.

A escolha que Sócrates fez retrata a sua personalidade. Estamos perante um animal político, que nunca larga mão da retórica e que sempre se alimentou do espetáculo, da comunicação e do confronto - e quanto mais agressivo, melhor para ele! E ele é assim fora e dentro da prisão. Colocada à sua apreciação e consentimento a prisão domiciliária, volta a mostrar esse mesmo tom incendiário, num verdadeiro braço-de-ferro com a Justiça portuguesa.

O mesmo confronto que revelara no passado quando anunciou ir cursar Filosofia, para Paris, rodeado de luxos e mordomias, após ter cessado o exercício de primeiro-ministro de Portugal. O mesmo tom provocatório com que comunicara ao país, enquanto show-man e comentador de programa de televisão, num à-vontade absolutamente incrível, que havia adquirido essa vida faustosa com “um empréstimo contraído junto da banca” ou com uma “herança”.

Confesso-vos que receio todos aqueles que, obstinados, não olham a meios para atingirem os seus fins. Na “Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith escrevia, no capítulo dedicado ao “carácter da virtude”, que o homem prudente estuda séria e determinadamente para entender o que professa entender, e não apenas para persuadir os outros de que entende. Ou seja, o homem prudente é sempre sincero. José Sócrates revelou uma vez mais ser um homem imprudente. E, com isso, é também um homem perigoso, pois nos seus atos não revela ter a mínima noção do que são os limites. Tudo isto a par, confesso ainda, de uma enorme capacidade de persuasão, que certamente explica o rol de admiradores e defensores que ainda hoje tem.

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