Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Solidariedade e verdade

Sinais de pontuação

Ideias

2011-05-03 às 06h00

Jorge Cruz

Que solidariedade podem os portugueses esperar de um primeiro-ministro que afasta camaradas de partido ou “compagnons de route” que sempre deram mostras de empenhamento e abnegação? Pessoas com trabalho desenvolvido em prol do governo e do país. Individualidades que não regatearam esforços e que levaram a sua fidelidade e solidariedade para com o chefe do governo ao ponto de prejudicarem o seu próprio prestígio pessoal e profissional.

Esta não é, infelizmente, uma pergunta meramente retórica. Corresponde a uma questão fulcral porque enforma a maneira de ser de um dirigente político de topo e, ao constituir um traço dominante do seu carácter, reflecte-se naturalmente no seu “modus operandi” no dia a dia.
José Sócrates, é ao secretário-geral do PS que me refiro, obviamente, não ficou muito bem na foto do “despedimento” de Teixeira dos Santos, quer como ministro das Finanças quer como candidato a deputado nas próximas legislativas. A secundarização do ainda titular da pasta das Finanças nas conversações com os representantes do FMI, BCE e CE, primeiro, e a não inclusão do seu nome nas listas de candidatos a deputados pelo PS, depois, demonstram claramente que a gratidão e a solidariedade não são qualidades que integrem o cardápio do chefe dos socialistas.

Acontece, porém, que nas actuais circunstâncias, com a situação extraordinariamente difícil com que nos confrontamos, este seria o tempo de uma nova visão, de uma nova atitude. Como já tem sido defendido por diversos especialistas, é talvez chegada a hora de mudar o sistema para refundar o regime.

Mas operar mudanças profundas como aquelas que todos sentimos necessárias, até para promover a aproximação entre eleitos e eleitores, implica desde logo a transformação de mentalidades e, neste particular, tenho sérias dúvidas quanto à viabilidade de isso acontecer em alguns dos actuais protagonistas políticos, mais preocupados que estão com o “poleiro”.

Mas também não creio que a refundação do regime possa passar pelos agora tão reclamados governos de salvação nacional, pelo menos por aqueles que apenas tenham em conta a satisfação da aritmética parlamentar, ou seja, que resultem exclusivamente da contabilidade dos votos das eleições legislativas. O momento presente impõe-nos que vamos bastante mais além. Impõe-nos a procura de soluções mais criativas e abrangentes que contemplem apoios sociais, desde o mundo do trabalho ao movimento associativo, passando pelas igrejas e outras forças com intervenção na sociedade.

Evidentemente que a obtenção de resultados estará sempre dependente do grau de empenhamento dos órgãos legitimamente eleitos e que, como é natural, constituem o pilar fundamental da democracia.

Não nos podemos esquecer que na origem da actual crise estão múltiplos factores, uns exógenos outros endógenos. Mas numa breve reflexão retrospectiva facilmente concluiremos que o modelo de desenvolvimento que nos foi imposto pela União Europeia, e que o então primeiro-ministro Cavaco Silva adoptou, tem uma enorme quota de responsabilidade na situação que se vive.

Todos se recordarão que nessa altura fomos exemplarmente apontados como bons alunos, ou seja, cumpridores das directivas que nos iam ditando e que vinham acompanhadas com sucessivas tranches de milhões.
E foi assim que liquidámos uma séria de actividades tradicionais, como a agricultura e as pescas, e apoiámos apostas na monocultura sem cuidar de acautelar outras opções, outros modelos de produção económica.

Agora, com a mais grave crise internacional das últimas décadas, surgiu também um violento ataque especulativo dos mercados, curiosamente visando também os restantes países europeus com governos socialistas, a Grécia e a Espanha, como muito bem notou o antigo presidente Mário Soares.

Para agravar ainda mais a situação, os partidos dão diariamente mostras de grande desentendimento e, pior ainda, as duas forças que habitualmente alternam no poder optam frequentemente por ataques de tal virulência que podem inquinar as relações políticas futuras.
Os portugueses assistem perplexos a estas autênticas lutas de galos, que têm os negociadores da “troika” também como observadores atentos e provavelmente não menos estupefactos. E a surpresa é tanto maior, para uns e outros, quanto é certo que o programa do próximo governo será fortemente influenciado, para não dizer que será enformado, pelos próprios representantes das instituições que vão emprestar o dinheiro de que necessitamos urgentemente.

E a ser assim, como parece incontornável, que sentido fará fazer diariamente promessas aos portugueses? Essa poderá ser uma via para ganhar as próximas eleições mas não será certamente o modo mais adequado de o fazer.

O país não pode comparar-se a uma telenovela ou a uma qualquer série em que o guião pode ser alterado a bel-prazer do produtor, sempre que oportuno e para satisfazer as audiências. Estamos a tratar de coisas bem reais, com reflexos no futuro do nosso país e, consequentemente, que influenciam a vida de milhões de pessoas. É preciso ter perfeita consciência disso e de uma vez por todas agir com responsabilidade e falar verdade. Os portugueses esperam essa postura dos políticos.

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