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Somos os livros que lemos

“Inovar com Determinação” - homenagem a Maria José Moura

Somos os livros que lemos

Voz aos Escritores

2022-04-22 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Fui
Isadora Duncan e Florbela Espanca,
Virgínia Woolf e Jane Austen.
Voltei tantas noites e voei pelos reinos de fantasia!
Juntos fomos ventura e aventura,
Junqueiro, Nobre e até Pessanha.
Viajámos com Garrett, Eça e Sophia,
no melhor da poesia.
Fizemos amor com muitos jogos de sedução,
é no ninho dos vossos versos
que alimentamos a paixão!
Fernanda Santos
in Gosto que me habites

Nutro um grande fascínio por quem, como eu, gosta de ouvir e ler grandes homens das artes e das letras. E se o prazer de ouvir gera em mim um prazer enorme de falar, o prazer de ler quem escreve bem gera duplamente em mim uma vontade enorme de despir e vestir outras palavras. A este propósito, Padre António Vieira diz-nos que o texto escrito é um cadáver que só se torna vivo quando é lido, quando cativa o leitor e viaja com ele para uma nova aventura na escrita.
Chamo a esta conversa o reconhecido escritor, com origens na minha terra, Jorge Luís Borges, fazendo minha a sua conceção de autor: somos cada livro lido, cada história vivida nesse mar de letras e cada sensação experimentada ao longo de mil e uma estórias. As pessoas são tudo o que vivem e também tudo o que evocam em cada uma dessas narrativas que, com as suas personagens, as suas batalhas e seus universos fantásticos, nos trazem felicidade. Aliás, dizia também Jorge Luis Borges que o paraíso devia ser algo como uma grande e infinita biblioteca. Uma imagem idílica ao exercício diário de leitura e da sua infinitude.
Na relação entre os livros e os seus criadores de Borges há um constante diálogo entre as noções de autor e de individualidade, ou melhor, da sua conceção de literatura como um todo. São dele as seguintes afirmações: “quando era jovem queria ser Lugones, e depois percebi que Lugones era muito mais convincente que eu. E agora me resignei... a ser Borges, ou seja, a ser todos os escritores que li, e entre eles está Lugones”.
Herdamos a linguagem e esta é a uma tradição, um modo de sentir o mundo.
Em suma, pode-se interpretar que, para Borges, qualquer escritor individual, pelas suas relações com a tradição linguística e literária, pressupõe todos os outros – ou, no mínimo, todos os outros de sua língua –, de modo que as criações individuais tornam-se limitadas diante da literatura como um todo. Ele escrevera, a este respeito, há muito tempo, que quando lemos Shakespeare somos, pelo menos momentaneamente, Shakespeare. “[...] Sim, eu disse isso e acredito que é verdade, embora, talvez em alguns casos possamos prolongar ainda mais Shakespeare, já que o texto de Shakespeare foi enriquecido por essas repetidas experiências que se chama história.”
Há, assim, o raciocínio de que o leitor coincide momentaneamente com o autor de um texto durante a leitura, o que nos leva mais uma vez à conceção de autor como entidade literária impessoal.Mais do que isso, há a afirmação de que o autor pode ser prolongado pelas diversas leituras e comentários acerca da obra, além da própria experiência histórica.
Será que um grande escritor cria os seus precursores? Parece-nos natural que cada escritor se insira
na tradição que escolheu, ou seja, como trabalha o seu próprio texto, as influências recebidas das mais diversas leituras feitas.
Quando lemos as “Mil e uma noites” aceitamos essas fábulas urdidas como se fossem de um único autor, ou melhor, como se não tivessem autor. De facto, algo tão limado pelas gerações já não corresponde a um indivíduo concreto. E poderia acontecer-lhes o que aconteceu com Dom Quixote: poderiam perder-se todos os exemplares do livro, mas a figura de Dom Quixote continuaria a fazer parte da memória da humanidade. Por isso, nós somos os livros lidos nas bibliotecas que visitámos e os que moram nas estantes da nossa casa: romances, contos de fantasia e muita poesia!...

Gosto do cheiro de um livro
bordado a papel!
Gosto de fazer pausas na leitura
de um belo trecho
e encostá-lo contra o peito, fechado,
enquanto mastigo o que foi lido.
Depois, reabro cada sílaba, cada palavra, e continuo viagem […]

Somos também as grandes peças de teatro a que assistimos, nomeadamente às da “dama maior” do teatro português, a eterna atriz Eunice Muñoz!

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