Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Sonho psicadélico

Semana Europeia da Mobilidade: incentivo para uma Europa mais eco-friendly

Conta o Leitor

2019-07-22 às 06h00

Escritor Escritor

Cláudia Santos

Enquanto dormia ventos cortantes iam de encontro à janela, ouviam-se os uivos das árvores e os sussurros das aves nocturnas, uma nuvem imensa, carregada de electricidade num relampejar fulminante ameaçava desabar sobre a casa, ouviam- se vozes abafadas, sombras enegrecidas de uma outra dimensão.
Os arrepios dos vultos em movimentos horripilantes faziam estremecer a pequena e cálida divisão.
Foi então que acordei, o vulto era bem real e assombroso, à medida que avançava só se ouviam os destroços que ia deixando no chão, destruía tudo o que apanhava à mão com uma rapidez brutal.
O seu olhar vazio e perigoso fazia antever que nos encontrávamos ante um psicopata.
Abaixei-me e puxei a pequena gata lustrosa para mim, fomos até à porta e saímos, lá dentro ainda se ouviam mestilhaços dos objectos partidos.
Meti a chave no carro e arranquei a toda a velocidade. O carro seguia pelas calçadas reluzentes na zona histórica da cidade até à esquadra de polícia, entrei não sem antes deixar a pequena gata adormecida no banco, dirigi-me a um desses oficiais que tomou nota da ocorrência enquanto me olhava de soslaio.
- Você diz que a sua casa foi assalta- da? (Perguntou, num tom brusco).
- Foi o que acabei de dizer.
- Então explique-me lá como conseguia dormir tranquilamente se o presumível ladrão ia partindo tudo o que apanhava à mão, e já agora, diz que ele ainda continuava a partir as coisas quando saiu de casa? Desculpe lá mas não conheço nenhum ladrão assim tão barulhento e no seu relatório não dá por falta de nada.
- É verdade, mas se não era ladrão, então que estava a fazer em minha casa? Isso. parece-me, devem ser vocês a averiguar. (Respondi num tom igualmente brusco).
Como ainda estava em pijama, resolvi ir a casa trocar de roupa para o trabalho, mas como fazer? O homem podia ainda lá estar.
Quando me dirigia para o carro, reparei
que a porta estava aberta e a gatinha tinha saído, deve ter ido dar uma volta, pensei, ela encontra sempre o caminho de casa.
O polícia relutante lá acedeu a ir a minha casa, por via das dúvidas e quando viu aquela confusão toda, soltou!
- Ó mulher, você tem isto tudo partido.
Virei-lhe as costas e fui-me vestir. Quando me viu com a minha gabardine bege pelo joelho e vestido da mesma cor, com uns sapatos a condizer, a sua atitude mudou drasticamente.
- Bem, vou mandar a equipa e vamos verificar também nas redondezas se há rasto do homem, esteja descansada.
Dirigi-me para o trabalho e sentei-me à secretária. Nesse preciso momento entrou a Miléne, a minha secretária.
- Miléne, eu disse que não queria ser interrompida.
- Desculpe, Doutora, mas é uma chamada urgente de um dos nossos clientes.
- Obrigada, Miléne, passe-me a chamada.
- Bom dia, Senhor Engenheiro, como está?
- Carla, preciso que venha imediata- mente.
- Como queira, de qualquer modo, estou a precisar de apanhar ar.
A paisagem era lindíssima entrecortada por montes e vales, por cima, um céu azul cristalino, rios e riachos avistavam-se à medida que percorria a auto-estrada, um ar fresco e puro como há muito não sentia. Num raio de quilómetros não se avistava uma casa, era maravilhoso.
- Bem vinda a Vila Flor, ainda bem que pôde vir tão depressa.
- A nossa empresa gere os tratamentos dos recursos naturais do País, e não podia, como é evidente, deixar de prestar especial atenção ao Douro, uma paisagem única e de grande valor natural e histórico para o País.
(...)
- Agradeço-lhe desde já pois a Naturalis, sua empresa, sempre me prestou grande auxílio, é uma parceria de muitos anos.
- Qual é de facto o seu problema? - Bem, começaram a aparecer artefactos
estranhos na minha herdade, que têm infestado as minhas videiras.
- Não compreendo.
- Os artefactos, provavelmente de origem fenícia, e que eu prontamente envia- rei para o museu de História parecem ter uns resíduos estranhos, parecidos com ferrugem que quando expostos ao ar foram progressivamente corroendo os artefactos, apesar de ainda se encontrarem em bom estado, o problema é que não posso tirá-los daqui com risco de entrarem em rápida decomposição.
- Então porque não chamou uma equipa de biólogos, cientistas, sei lá, para estudarem o estranho caso?
- Porque os artefactos estavam agrupa- dos numa enorme antecâmara mesmo por baixo de Vila Flor, aliás ocupam todo o perímetro da herdade.
- Meu Deus.
- Bem pode dizê-lo, agora tenho de fazer uma escolha: ou a herdade ou os arte- factos, pois mal saiam para a luz do dia decompõem-se e não posso chamar os arqueólogos, como deve calcular.
- Bem, como sabe, a minha prioridade e da empresa para a qual trabalho é sempre a de preservar o meio natural a qualquer custo, temos projectos-piloto, na Arrábida, Montesinho, Vale de Cambra e um pouco por todo o País, o nosso maior orgulho é o projecto que conseguimos desenvolver no Parque Nacional da Peneda-Gerês; contudo, estes artefactos, segundo o que me contou podem ser de grande valor histórico e patrimonial, vou chamar os especialistas e veremos o que se pode fazer.
- Senhor Engenheiro, segundo os especialistas os artefactos são fenícios e muito raros.
- Bem, vou deixá-los a tratar do assunto e aproveito para ver como estão as minhas herdades na Madeira, adeus Carla.
- Boa viagem, senhor Engenheiro, eu vou voltar para o escritório e ver se a polícia já sabe alguma coisa do assalto a minha casa, ontem à noite.
- Até uma próxima, então.
Esta agora, o homem ontem não se calava com o escaravelho, terá alguma coisa
a ver com isto? E como é que ele podia saber? Nem eu própria fazia ideia.
- Está com melhor aspecto, doutora!
- Obrigada, Miléne, foi dos ares do campo, sabe como é, olhe, tem aqui um fatinho para o seu bebé, é azul às riscas.
- Muito obrigada, doutora. - De nada, Miléne. O sol punha-se já por trás das montanhas e uma leve brisa fazia sobressair o perfume das rosas nos inúmeros jardins da Cidade dos Arcebispos quando entrei novamente na esquadra.
- Então, há desenvolvimentos? - Inquiri.
- Ainda não, doutora, o indivíduo não roubou nada mas deixou ficar isto.
Estendeu na minha direcção um par de botões de punho em suástica.
- Nazi? Mas hoje é só clichés? (pensei em voz alta enquanto me informava se a porta tinha ficado bem trancada quando os polícias saíram).
- Não se preocupe, ficou bem trancada, aliás nem foi forçada, ou ele não entrou pela porta ou ela estava aberta no mo- mento em que ele entrou.
- Disparate, eu tranco sempre muito bem todas as portas antes de me deitar.
- A fechadura não foi forçada, como disse, para além disso, a senhora não deu pela falta de nada, tem de concordar que é um roubo muito estranho, decerto.
- Decerto, indaguei.
Mas que me quer o Filipe, porque insiste sempre em procurar-me? Estou farta de ter de passar a minha vida a mudar de casa, pôr fechaduras novas, vou dar a sua descrição à polícia e eles que resolvam.
Mas a suástica que ele deixou cair, não faz sentido nenhum, ele sempre disse que os alemães eram um povo “culturalmente estúpido”. Contudo têm ocorrido muitos assaltos a museus e outras entidades cul- turais patrocinadas por alemães, tenho de verificar.
Agora vou para casa tomar um banho relaxante e ver como está a minha gatinha, deve estar esfomeada, não lhe dei de comer em todo o dia...

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